Em Destaques, Música

Por Clayton Mamedes

Um dos ícones da música francesa do pós-guerra, Pierre Boulez é um compositor e regente que movimenta paixões. Suas obras e seus escritos tendem a despertar relações que podem alcançar extremos de amor ou ódio, resultado de suas afirmações e comentários polêmicos. A despeito destas relações afetivas, é inegável sua influência sobre a música contemporânea, especialmente sobre a cena francesa. E esta influência, associada a sua personalidade controversa manifesta através de opiniões fortes, é o combustível para muitos de seus detratores1. Entretanto, as polêmicas que criou não impedem que apreciemos sua produção musical. E este será o foco deste texto.

Sua trajetória como compositor, segundo o catálogo Brahms2 do IRCAM, compreende obras inéditas compostas entre 1945 a 2005. Nestes sessenta anos de atividade, a obra de Boulez transitou por estilos e técnicas distintas.

As primeiras obras compostas por Boulez utilizam o serialismo como procedimento composicional. Partindo de obras estruturadas de acordo com os princípios dodecafônicos de Arnold Schoenberg e sob influência do pontilhismo de Anton Webern, como a Primeira Sonata para Piano (1946), a complexidade da escrita musical de Boulez se manifestará em seu melhor exemplo através de Structures (1952). Seis anos após a Sonata, esta obra de Boulez emprega o Serialismo Integral. No serialismo originado em Arnold Schoenberg, a estruturação das alturas parte de uma sequência fixa, que não poderia ser repetida. Esta lógica composicional foi estabelecida como forma de evitar a polarização ao redor de notas específicas, base dos sistemas modal e tonal. Esta proposta foi uma forma de organizar a estrutura musical no período pós-tonal, em substituição à harmonia baseada na superposição de terças e na série harmônica. Em Structures, Boulez aplica o serialismo a todas as estruturas da obra, englobando alturas, durações, dinâmicas e ataque.

No ano anterior à finalização de Structures, Boulez se aventura nos estúdios do Grupo de Pesquisas em Música Concreta3 da Radio France. Entretanto, neste período, produz apenas estudos. Suas obras posteriores, como Le marteau sans maître (1954), continuam a utilizar procedimentos seriais e uma abordagem estética inspirada na Segunda Escola de Viena (A. Schoenberg, Alban Berg e A. Webern). A partir deste mesmo ano, 1954, Boulez assume a direção dos concertos do Domaine Musical, sociedade de concertos voltada à música pré-classica e contemporânea. Dentre os compositores recentes mais tocados, se destacam o próprio Boulez, Karlheinz Stockhausen, Henry Pousseur, Luciano Berio e Maurizio Kagel. Foi através do Domaine Musical que a carreira de regente de Boulez adquiriu um grande impulso, passando a ser convidado com frequência a dirigir grandes conjuntos musicais europeus e estadunidenses, compreendendo repertórios de música moderna e contemporânea que se estendem da música de câmara à ópera. Neste período Boulez escreve sua obra literária mais conhecida: Penser la musique aujourd’hui (1963), leitura obrigatória para quem deseja se aprofundar no pensamento musical do compositor. Já a obra Pli selon Pli (1962), composta sobre textos de Stéphane Mallarmé, marca o fechamento desta primeira fase do compositor Boulez.

Domaines (1968), na versão para clarineta e conjunto instrumental, é considerada a obra mais representativa de seu período intermediário. Adota como procedimento composicional os recursos de obra aberta (ou semiaberta, dependendo da terminologia de análise); a obra consiste em 12 folhas de igual duração, divididas em dois grupos; dentro de cada grupo, estas folhas podem ser tocadas na sequência que o solista e o regente desejarem.

As próximas grandes pedras fundamentais que Boulez lançará sobre a música contemporânea serão do final da década de 1970: a fundação do Ensemble Intercontemporain (1976), grupo instrumental de solistas especializado na performance de obras contemporâneas. Mantido pelo Ministério de Cultura francês, o grupo estabeleceu uma série regular de concertos e encomendas de novas obras. Devido à qualidade de suas performances, associada a atividades de formação de público, o grupo rapidamente se tornou referência na cena musical contemporânea. No ano de 1977, Boulez dirige a fundação do Instituto de Pesquisas e Coordenação Acústica/Música – IRCAM, instituição dedicada à pesquisa de inovações tecnológicas na área sonora/musical e à criação de novas obras.

É durante este período à frente do IRCAM que Boulez compõe sua obra empregando recursos eletroacústicos mais conhecida – e considerada sua obra prima – Répons (1982). O sucesso desta experiência leva o compositor a produzir uma série de composições empregando recursos eletroacústicos, durante esta que é considerada a terceira fase de sua carreira. Precisam ser escutadas pelos apaixonados por música contemporânea: Dialogue de l’ombre double (1985), …explosante-fixe… (1993) e Anthèmes 2 (1997). Todas estas obras incluem a parceria com Andrew Gerzso, responsável pela realização da parte eletroacústica4.

Embora as atitudes polêmicas do compositor tenham motivado críticas a sua personalidade, não podemos deixar de reconhecer que sua obra e suas atividades contribuíram – e muito – para a formação dos caminhos que a música contemporânea percorreu. Seu legado, sem dúvida, faz arte da História da Música, em um capítulo que se encerrou no início deste ano de 2016.

1O texto de Georgina Born sobre o IRCAM é uma boa introdução a muitas reflexões que devem ser colocadas à mesa, para quem quiser se aprofundar nestas questões. Sobre os comentários polêmicos, algumas pérolas levantadas:

http://www.theguardian.com/music/musicblog/2015/mar/26/boulez-in-his-own-words

http://www.lemonde.fr/disparitions/article/2016/01/06/mort-du-compositeur-et-chef-d-orchestre-pierre-boulez_4842501_3382.html#u3z3G5Cb5vF4SgkU.99

2 http://brahms.ircam.fr/pierre-boulez

3 Este grupo se tornaria o Grupo de Pesquisas Musicais em 1958, nome pelo qual é mais conhecido.

4 Realização da parte eletroacústica compreende a criação da parte gravada segundo a concepção do compositor.

Pierre Boulez

Dialogue de l’ombre double (Proms 2012)

Prom 10: Beethoven Cycle – Symphonies Nos. 3 & 4

  play

https://www.youtube.com/watch?v=zCFjKXEqaVA

Répons

Ensemble Intercontemporain

play https://www.youtube.com/watch?v=OQE5TYnD58k

Clayton Mamedes. Doutor em Música pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (IA-UNICAMP).


Imagem: A.Warme-Janville

 

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