Em Análises e Reflexões, Destaques

Por Nilson Lage

O cineasta soviético Vsevolod Pudovkin dizia sobre seu contemporâneo Serge Eisenstein, diretor de “O Encouraçado Potemkin”, que ele usava as técnicas de montagem para “fazer pedrear as pedras”.

Isso me veio à cabeça ontem (09/06) ao ouvir o breve discurso de Dilma Rousseff a um grupo de convidados ao almoço em que foi homenageada na casa do Professor Rogério Cezar Cerqueira Leite, em Campinas.

Pessoa dramática de uma tragédia-farsa política, ela se empenha para mostrar ao mundo que o que lhe fizeram é uma perfídia. Embora mantendo, por dever, a esperança de retornar à presidência pela reversão das expectativas de voto no Senado, suas entrevistas à imprensa estrangeira e denúncias a auditórios locais objetivam expor o caráter antidemocrático e ilegítimo do golpe que a afastou.

Trata-se de mais uma tarefa revolucionária da militante agora acusada de crimes indefinidos que se resumem em locução incompreensível, “pedaladas fiscais”.

Na verdade, não houve crime; foram erros, principalmente os políticos, que levaram Dilma a essa situação, e não cometidos por ela: já os recebeu prontos.
O primeiro foi o presidencialismo de coalizão, consagrado na constituição de 1988. Em um país em que os partidos não têm consistência ideológica, era inevitável a construção de pactos com base em outros interesses. Os desvios de conduta nem foram imprevistos: eles justificaram a criação de um sistema corregedor enorme, complicado e, principalmente, autogerido, com auditores, policiais, procuradores e magistrados – pessoas com agendas próprias e incontroláveis.

O segundo, a incomunicabilidade do poder. Para justificar o desleixo, usou-se argumento tão convincente quando absurdo – que a Internet substituiria os canais tradicionais de comunicação. Nenhuma pesquisa séria comprovaria isso: é como imaginar que o rádio eliminaria a escola, o cinema extinguiria o teatro ou o telefone acabaria com os encontros de pessoas. A internet é um suporte de comunicação onde todos falam e os discursos individuais se compensam e só eventualmente não se anulam ou são irrelevantes.
Empregou-se demais a retórica do oba-oba quando a boa norma recomenda que se seja moderado em tempo de fartura e otimista em tempo de escassez. Criou-se a cultura de só noticiar obras de interesse público tocadas pelo governo apenas como anúncio ou para crítica feroz.

O terceiro e mais importante erro foi o desprezo por uma área fundamental, a inteligência do Estado. É notável a falta de informação estratégica e cálculo geopolítico capazes de registrar e fiscalizar a revoada de agentes e operadores enviados do estrangeiro, principalmente dos Estados Unidos, nos últimos doze anos, em missões de desestabilização, área por área (eu mesmo, que pouco me movimento, vi vários deles em ação); de acompanhar o modus faciendi das primaveras árabes adaptado ao mundo simbólico e contingências políticas da América Latina; ou de apurar quanto, como, onde e em benefício de quem a integração global das vias eletrônicas de comunicação eliminava o sigilo das comunicações entre agentes políticos, órgãos e empresas.
Fui ao encontro em Campinas a convite do Professor Rogério e paguei passagens com os vencimentos de minha aposentadoria.

Do Facebook do Autor: 10/06/2016.

Nilson Lage. Jornalista e professor universitário (UFRJ e UFSC). Doutor em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.


 Imagem: Audiovisual pela Democracia 09/06/2016.

Facebooktwittergoogle_plus