Em Conjuntura Internacional, Destaques

A força dos acontecimentos leva-me a interromper a série de colunas dedicadas a analisar as rivalidades sino-americanas no Sudeste Asiático, a fim de fazer uma incursão no Leste Asiático. O evento determinante, aqui, foi a explosão no dia 9 de setembro de 2016, pela Coréia do  Norte, de  uma quinta e mais poderosa bomba nuclear. Sobre ela, escreveu Roberto Godoy,  especialista em temas militares de O Estado de S. Paulo: “Agora é sério,  muito sério. O teste nuclear da Coréia do Norte não é mais um procedimento de laboratório, passou da marca dos 20 quilotons, pode mesmo ter chegado aos 30 quilotons (…) Mais grave, o ensaio norte-coreano indicou que os técnicos de Pyongyang já dominam a tecnologia da miniaturização dos sistemas e têm a capacidade, sim, de instalar a bomba a bordo de uma ogiva de foguete.” Paralelamente à bomba, os norte-coreanos vêm desenvolvendo um acurado programa de mísseis, e já podem  alcançar a costa pacífica dos EUA, com uma bomba comparável à lançada pelos americanos sobre Hiroshima.

A rivalidade sino-americana no Nordeste Asiático, compreendendo as duas metades  da Península Coreana mais o Japão, persiste desde o fim da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria. As relações Pyongyang-Washington estão no centro de precário equilíbrio estratégico, cuja pedra de toque é a incapacidade de as duas diplomacias irem além  do armistício que interrompeu a Guerra da Coréia, em 1953. Negociado por militares dos EUA e da Coréia do Norte, sem a participação da Coréia do Sul, o armistício força os nortistas a um contínuo exercício de brinkmanship, na esperança de trazerem os americanos a negociar um tratado de paz. Enquanto não houver esse tratado, o regime de Pyongyang sente-se em risco de ser a qualquer momento esmagado pelo punho de ferro americano. Avançar no duplo programa de construção da bomba nuclear e da produção dos mísseis capazes de transportá-la a plagas americanas tornou-se, então, fixação da Coréia do Norte. Em 1994, uma grave crise eclodiu, com os EUA acusando a Coréia do Norte de estar processando plutônio no reator moderado a grafite, em Yongbyong. A intervenção armada dos EUA foi sustada à última hora, graças ao na época ex-Presidente James Carter, que acorreu pessoalmente para negociar com o ditador norte-coreano, Kim Il-Sung, um acordo-quadro (assinado em Genebra, outubro de 1994) pelo qual Pyongyang concordava em fechar o reator incriminado. Embora politicamente frágil, por causa do falecimento do fundador do regime nortista três semanas depois da partida de Carter, o  acordo-quadro desanuviou durante um bom período as  tensões no Nordeste Asiático, permitindo em particular à China e à Coréia do Sul acelerar os respectivos desenvolvimentos econômicos.

A Coréia do Sul pôde,  inclusive, permitir-se uma política de mão-estendida aos nortistas, chamada Sunshine e que durou cerca de dez anos. Acabou em 2008, com a chegada ao poder, em Seul, do governo conservador de Lee Myung-bak, sucedido na Presidência, em 2013, pela senhora Park Geun-hye, filha do ditador que modelou a Coréia do Sul. Essa confrontação entre as duas metades da Península Coreana, nascida da oposição EUA-URSS, na estruturação  do mundo do pós Segunda Guerra Mundial, continua ativa e envolve, hoje, tensões entre a China e os EUA; entre a China e a Coréia do Sul; entre a China e a Coréia do Norte e o Japão. As relações China-Coréia do Sul têm aspectos específicos. Lembre-se que o armistício de 1953, entre os nortistas e os EUA, foi provocado pelo derrame de “voluntários” chineses na Guerra da Coréia, para levar de volta quase ao Mar do Japão as tropas americanas que estavam ameaçando ocupar a Coréia do Norte. Surgiu aí uma situação que será sempre repelida pela China: a instalação de forças americanas na fronteira sino-norte coreana. A China tudo fará para manter o regime de Pyongyang como um Estado-tampão entre ela e a aliança Washington-Seul. Embora acompanhando nos últimos anos as condenações do Conselho de Segurança das NU dos sucessivos ensaios de explosão de artefatos nucleares e lançamento de mísseis, da Coréia do Norte, a China prima por manter vivo o regime de Pyongyang. Com um intercâmbio bilateral anual de 7 bilhões de dólares, a China é hoje responsável por nove décimos das importações da Coréia do Norte: quase metade dos alimentos; sete décimos do petróleo; e quatro quintos dos bens de consumo.

Conforme salientou The Economist (13/02/16), vem-se tornando cada vez mais custoso para a China manter o  Estado-tampão. Mas Xi Jinping teria decidido pelo interesse de preservar a estabilidade política da Coréia do Norte, ainda que a custo da nuclearização do regime. “Não será possível” – diz-se – “melhorar efetivamente as relações entre os dois lados da Península, enquanto perdurarem as provocações americanas no Mar do Sul da China.” Após a quarta explosão nuclear dos nortistas, em fevereiro de 2016, Washington iniciou conversações com Seul para a instalação na Coréia do Sul de um sistema avançado de defesa anti-mísseis, o THAAD (Terminal High Altitude Air Defense). Isso aborreceu imensamente os chineses, que vêem o sistema voltado contra seus próprios mísseis. Xi Jinping, que até hoje não se encontrou com Kim Jong-un, já conversou seis vezes sobre o assunto com a Presidente sul-coreana. Ele encontrou-se, também, com Barack Obama, sem que tenha havido uma diminuição concreta da distância que vem afastando Pequim e Washington em toda essa problemática. Os ocidentais não encontram alternativa a intensificar as provadamente ineficazes sanções contra os norte-coreanos. É  até possível dizer que, quanto mais duras as sanções, mais encontram os nortistas maneira de aperfeiçoar seus programas.

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