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Por José Goldenberg

A grande obra de Cervantes, “Dom Quixote de La Mancha”, nos conta as vicissitudes de Dom Quixote, “um pequeno fidalgo castelhano que perdeu a razão por muita leitura de romances de Cavalaria e pretendia imitar os seus heróis favoritos” (Wikipédia), sempre buscando o bem e a justiça.

Insano, Dom Quixote confunde moinhos de vento com gigantes hostis e se lança sobre eles sempre com resultados desastrosos, apesar dos conselhos ponderados de seu fiel escudeiro Sancho Pança.

No final, Dom Quixote recobra a razão e reconhece melancolicamente sua ingenuidade e romantismo.

Rogério Cerqueira Leite, em “Um aprendiz de Quixote” (Verbena Editora; 2016. 192 páginas), repete a tragédia e a glória de D. Quixote.

Um bom cientista, excepcionalmente culto e escritor talentoso, lançou-se a lutar contra as injustiças (os moinhos de D. Quixote) o que é positivo. Porém, a meu ver, nem todos os alvos que escolheu foram os corretos.

Identificou corretamente os problemas da burocracia, do corporativismo nas universidades brasileiras, particularmente na UNICAMP, onde foi injustamente preterido várias vezes como Reitor.

Provavelmente teria sido um bom Reitor e aprenderia que uma institucionalização prematura que ele critica poderia ter sido evitada sem prejuízo do estabelecimento de regras claras de admissão e promoção.

Prova disso é a boa gestão que realizou como Vice-Presidente Executivo da CPFL de 1982 a 1986, para o qual o Governador Franco Montoro o nomeou por indicação minha como Presidente das Empresas de Energia do Estado de São Paulo, contrariando interesses de políticos de Campinas.

As iniciativas criadoras, como a CODETEC, o Laboratório Sincrotron e outros, fugindo da burocracia asfixiante das Universidades, foram muito importantes, mas a falta de institucionalização das suas iniciativas é questionável.

Zeferino Vaz, seu ícone, criou a UNICAMP desta forma, mas a longo prazo estas iniciativas requerem um pouco mais do bom senso de Sancho Pança do que do brilho de D. Quixote.

Algumas batalhas em que se envolveu mais como jornalista do que como cientista são bastante discutíveis e seu nacionalismo um pouco primário obscureceu seu julgamento. A meu ver suas atividades como jornalista não foram tão construtivas como administrador de atividades científicas.

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José Goldenberg. Físico. Professor Emérito na USP. É presidente da FAPESP.

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