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Não há sentença mais reveladora na História da Música do que aquela de Debussy que caracterizou Wagner como “um magnífico crepúsculo, que foi tomado por uma aurora”. E, de fato, como aponta Griffiths em sua História Concisa da Música Moderna*, o hipercromatismo de Wagner apenas serviria para acelerar o esgotamento do sistema tonal. Não foi assim por acaso que a ruptura definitiva com a harmonia tradicional tenha ocorrido pelas mãos de Schoenberg, que iniciara sua carreira pela via Romântica, submissa aos mesmos regulamentos que limitavam e torturavam Mahler e que eram o apanágio de Richard Strauss e até certo ponto de Wagner.

O desenvolvimento acima de tudo e apenas algumas licenças com o pequeno universo diatônico. Seu Pelléas und Mélisande de 1903 é, quanto aos meios, indistinguível das últimas obras de Strauss e certamente menos ousada que as derradeiras experiências de Mahler. E seu monumental Gurrelieder, terminado apenas em 1901, quase duas décadas depois da apresentação pública do Fauno de Debussy, representa um inacreditável retrocesso formal, se lembrarmos que esse é o mesmo autor que viria romper logo depois com os mais rígidos dogmas que a expressão humana havia conhecido.

O atonalismo é um espaço que já havia sido pressentido por muitos outros da geração anterior àquela de Schoenberg. Essa situação lembra algumas narrativas sobre povos primitivos que reconheciam a existência de mundos paradisíacos vizinhos, facilmente alcançáveis não fosse pelos encantos e feitiços. Finalmente, um herói o penetra enfrentando o desconhecido, após as frustradas tentativas de tantos outros. Esse herói é geralmente possuidor de um amuleto que o protege.

Assim, Richard Strauss, em suas óperas Electra e Salomé, beirou perigosamente o universo ameaçador do atonalismo para retroceder ao mais retrógrado formalismo do seu delicioso O Cavaleiro da Rosa. Mahler começou a espiar esse mundo ameaçador já em sua Oitava Sinfonia, recuperou o fôlego repousando durante a Nona Sinfonia e se preparava para uma incursão mais audaciosa, a julgar pelo adagio de sua inacabada Décima Sinfonia, quando morreu. O próprio Debussy, que tudo pressentira e tudo profetizara, não ousou ir mais além do que aquilo que atingira em Jeux.

Sibelius foi outro que ousou bordejar esse espaço proibido em sua Quarta Sinfonia, tendo retrocedido e de tal forma traumatizado, que passou os últimos trinta anos de sua vida em absoluta esterilidade. E Skriabin, não teria também penetrado nesse mundo, se não tivesse optado pelo caminho fácil da decadência mística?

O próprio Schoenberg teve seus retrocessos. A orquestração final dos Gurrelieder é posterior às suas primeiras incursões conscientes no atonalismo. O Livro dos jardins Suspensos precede de três anos o término dos Gurrelieder. Mas a experiência também foi terrível para Schoenberg que, resistindo a um retrocesso formal mais claro, foge para uma outra forma de expressão, a pintura.

Com suas forças recompostas e depois de muita reflexão, decide Schoenberg retomar a dura escalada do universo atonal. Era preciso primeiro destruir integralmente o dogma do diatonalismo e depois elaborar o serialismo. Suas obras Erwartung e Die Glückliche Hand, magistrais sob todos os aspectos, revelam novo estilo altamente individual de composição, cuja estrutura atonal não é o único integrante revolucionário. Schoenberg havia penetrado a selva encantada do atonalismo e derrotado a fera guardiã. Faltava apenas amestrá-la.

O grande intérprete atual da obra de Schoenberg é Boulez, e não haverá erro se o leitor adquirir qualquer de suas gravações. Proponho, aliás, uma coletânea dirigida pelo artista francês, com o Conjunto Intercontemporâneo e a Orquestra e Coro da BBC, que contém, o Jakobsleiter, Erwartung, Die Glückliche Hand, os Lieder Op. 22, as Sinfonia de Câmera 1 e 2 e as Três Peças para Orquestra, de 1910. É simplesmente imprescindível.

Erwartung foi lançado no Brasil em uma versão que nada fica devendo àquela de Boulez, com von Dohnányi e a Filarmônica de Viena.

Também foi lançado em nosso país, com Karajan e a Filarmônica de Berlim, uma elegante e expressiva versão do Pelléas und Mélisande. Obra desse mesmo período, A Noite Transfigurada também tem em Karajan um lúcido intérprete, mas eu ainda prefiro a versão de Boulez.

Outras interpretações satisfatórias são as de Sebastian com a Gewandhaus de Leipzig e a de Neumann com a Filarmônica Tcheca. Para os Gurrelieder eu recomendo a despojada e lírica gravação de Kubelík, a nervosa e exuberante versão de Ozawa ou a transparente e generosa interpretação de Boulez. E finalmente, para o Livro dos Jardins Suspensos, proponho Jarsky e Joste, por falta de melhor.

*Paul Griffiths, Histoire Concise de la Musique Moderne – de Debussy à Boulez. © Librairie Arthème Fayard, Paris, 1978. Trad. Marie Alyse Revellat.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 04/05/1986.

Arnold Schoenberg

Verklärte Nacht, Op.4 (Transfigured Night / La Nuit transfigurée)

Membres de L’Ensemble Intercontemporain
Pierre Boulez (Conducts)

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