Em Artes, Destaques

Arqueólogos e paleontólogos, tanto quanto historiadores da arte se confundem com inúmeros objetos e figuras encontradas em túmulos e outros sítios da China Antiga. Qual a função de um Bi, essa placa em forma de disco perfurado no centro, frequentemente em jade, que se encontra em quase todos os túmulos de altos dignitários? “Colloquies on Art and Archaeology in Asia” Nr 18 (Chinese Jades), 1997. E este outro pequeno objeto em forma de um pilar oco, também em jade, denominado cong. É preciso não esquecer que os chineses desde o neolítico acreditavam, e até certo ponto acreditam ainda hoje, que a vida após a morte não seria muito diferente daquela de antes. Como consequência, além de objetos ritualísticos de jade, vasos de bronze com comida e bebida, servos, concubinas, etc. eram encerrados no túmulo juntamente com o corpo do imperador, ou do nobre. Ao final do neolítico e começos da dinastia Shang (1.600 – 1.100 AC) vieram a ser quase que obrigatórios os recipientes de bronze para comida e bebida, principalmente o vinho, para acompanhar esses mortos. É notável a profusão de tipos diferentes de vasilhas para esta finalidade, cuja maioria apresenta como principal adorno uma figura básica denominada por escolares taotiê a partir do século 16 AC, embora em uma infinidade de variações. Fig.1 mostra uma dessas versões em um vaso you, da transição Shang Zhow (séc. 11 – 10 AC).

 

1Fig. 1 – Vaso cerimonial “you” (séc. 11 AC) da dinastia Shang (séc. 16 – 11 AC). Taotiê na faixa horizontal inferior, mais larga. Peça do acervo do autor. Foto: Guilherme Gallo Ortiz

Muitas discussões vêm ocorrendo a partir de meados do século 20 quanto à origem e o significado do taotiê (especialistas preferem a denominação “máscara animal”). Uma forte corrente acadêmica afirma que o taotiê não é senão um motivo de design, certamente por influência dos limitantes conceitos construtivistas de Levy Strauss. Todavia, sendo estes artefatos de bronze, principalmente um objeto de rito religioso, que atuam como receptáculos para oferendas aos ancestrais e para provisionamento de comestíveis e vinho para os que partem, intermediário, portanto, entre o mundo dos vivos e o dos mortos, é inaceitável que seus adornos sejam neutros, puramente motivos de design. Uma teoria alternativa à estruturalista foi apresentada no 15º Colóquio sobre Arte e Arqueologia na Ásia, em 1990, por dois pesquisadores independentemente, Colin Mackenzie e Alain Thote, segundo os quais o taotiê seria uma referência totêmica ao tigre ou outro animal divinizado.

Uma interpretação mais atraente foi neste mesmo Colóquio apresentado por Li Xueqin, da Academia de Ciências Sociais da China, segundo o qual, o taotiê seria derivado de uma narrativa mítica. Professor Li observa a semelhança entre figuras gravadas em jade da cultura do paolítico, Liangzhu (3.300 – 2.100 AC) e o taotiê das dinastias Xia (2.100 – 1.600 AC), Shang (1.600 – 1.100 AC) e Zhow (1.100 – 206 AC). A Fig. 2 mostra um dos motivos encontrado em um cong de jade da cultura Liangzhu. Se subtrairmos a cabeça do alto da figura, o restante parece muito com um taotiê típico.

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Fig. 2 – Decalco extraído de um cong da cultura Liagzhu (3.300 – 2.100 AC). Peça do acervo do autor. Foto: Guilherme Gallo Ortiz

Um mito fundamental da mitologia chinesa nos conta a história de uma divindade dissidente, Xin Tiang, que contesta Deus, cujo preposto na Terra, denominado Senhor, corta fora a cabeça de Xin Tiang. Os mamilos e o umbigo são então convertidos em olhos e boca respectivamente. Eis que, afinal, um Deus ou semi-Deus sem cabeça, seria um bom intermediário entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Todavia, a reação a esta teoria entre acadêmicos é enorme, pois a distância entre as localizações geográficas da cultura Liangzhu ao sul da China e a das dinastias Xia, Shang e Zhow ao centro-norte da China é significativa. Por outro lado, é reconhecido que trocas culturais entre civilizações distintas ocorrem profusamente quando existe comércio entre os dois povos mesmo quando as distâncias entre eles é muito grande. E a própria China é um caso exemplar.

Também se menciona a descontinuidade temporal, pois a civilização do norte, Xia, se iniciaria exatamente quando se extingue a cultura Liangzhu ao sul. Ora essas demarcações cronológicas são por natureza imprecisas e mitos capazes de impor uma iconografia simbólica como a que se fez notar nos jades Liangzhu costumam difundir-se em outras culturas. Pois bem, o mito chinês da divindade com duas cabeças sobrepostas se repete em outras culturas além de Liangzhu. Uma peça proveniente da cultura Hongshan (4.500 – 2.700 AC) é mostrada na Fig. 3. Nota-se que os braços derivam da aparente fronte da figura, o que seria de se esperar se esta face fosse derivada do tronco do Deus decapitado. O pássaro representaria a cabeça decepada de Xi Tiang.

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Fig. 3 – Estatueta Hongsham (4.500 – 2.700 AC). Peça do acervo do autor. Foto: Guilherme Gallo Ortiz

Talvez o mais importante indício de que o taotiê inclui uma mensagem mítica e não é simplesmente decorativa é o fato de que é encontrado principalmente em recipientes de vinho e comida e poucas vezes em artefatos de uso prático como, por exemplo, machados e facas, com frequência profusamente ornamentados. A reputada especialista Sarah Allan, da “Escola de Estudos da África e Ásia” da Universidade de Londres conclui que enquanto durante o neolítico tardio e a Dinastia Shang os recipientes de bronze eram usados em rituais religiosos, já durante a Dinastia Zhow esses artefatos passaram a representar símbolos de status para os proprietários, sendo inclusive limitado o número de objetos de bronze permitido a cada um, de acordo com a sua posição na hierarquia vigente (Colóquio em Arte e Arqueologia nº 15). Pois bem, se durante a Dinastia Shang praticamente todo recipiente levava como principal ornamento a figura de taotiê, já na dinastia Zhow o taotiê desaparece progressivamente, o que confere com a natureza mítica desse ornamento.


Créditos de imagem: artpages.org.ua


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