Em Destaques, Vida Nacional

Há muita eletricidade no ar. Na sociedade, na politica, na economia.

No Rio de Janeiro, o governo estadual não consegue controlar a reação do crime organizado e recorre a Brasília, solicitando o envio de tropas federais para garantir a presença do Estado em territórios que – até 2006 – eram dominados por traficantes e outros criminosos, e que agora estão sob administração das chamadas UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora) , núcleos centrais da política de segurança pública da gestão Sergio Cabral.

No plano nacional, as mobilizações grevistas vão se espalhando pelo país, passando a incluir os servidores públicos das áreas policiais e do Judiciário. Um dos conflitos mais tensos acontece em São Paulo, onde agentes penitenciários estão paralisados há semanas, dificultando a complexa politica de (tentativa de…) controle do crime organizado, o PCC –  que, pelo contrário, se fortalece e está financiando as ações do CV (Comando Vermelho)  contra as UPPs.

A disputa política é travada no Parlamento, na mídia, nas ruas. As denúncias cruzadas de malfeitos na administração pública povoam o noticiário: em São Paulo, um cerco vai sendo fechado em torno da malversação de recursos pelos governos do PSDB (os tucanos estão à frente do Executivo estadual há quase 20 anos, desde 1995); as acusações de corrupção visam, principalmente, os setores de transportes metropolitanos e de energia elétrica. Em Brasília, é a Petrobras que está na berlinda, assombrada por casos do presente (vindos da Holanda) e também do passado (a compra de refinaria nos EUA, que aconteceu em 2006), passando pela  prisão de um ex-diretor da empresa (por relações com uma rede de lavagem de dinheiro), que – até recentemente – fora um dos poderosos cardeais da corporação.

Nas ruas em movimento, pequenas mobilizações de massas clamam contra a realização no Brasil do torneio mundial de futebol, enquanto micro-cordões de viúvas&órfãos da ditadura de 1964 reivindicam a memória do regime que foi vigente por aqui durante duas décadas (e ao mesmo tempo pedem o retorno dos militares ao comando político do país).

O cenário econômico que caminhava para um equilíbrio, mesmo que instável, pode se complicar a partir do rebaixamento da dívida do País anunciado pela Stand & Poors em 24/03. Mesmo ainda mantendo o grau de investimento, e com a agência não prevendo novas mudanças pelos próximos dois anos, a redução da nota  provavelmente acirrará o  mau humor de setores importantes da sociedade, elevando o nível de pessimismo sobre o comportamento de nossa economia neste ano eleitoral.

No quadro externo, o governo norte-americano reduziu, como esperado, em mais US$ 10 bilhões mensais os estímulos à economia, demonstrando que sua retirada será feita de forma gradual e talvez o fim dos tempos não esteja no horizonte.

Outra variável que pode interferir negativamente é um agravamento da crise hídrica em São Paulo, fenômeno que poderia afetar seriamente a produção do estado com maior participação no PIB do País.

No mais, o debate eleitoral sobre temas estratégicos continua muito limitado e as discussões restringem-se ao curto prazo, com a ausência de indicação de política econômica que permita – no longo prazo – que o País caminhe para o crescimento sustentado. As sinalizações continuam apontando para um ajuste conservador. E, aparentemente, não há contraponto.

No Congresso Nacional, estas tensões da sociedade, da política e da economia repercutem e são amplificadas, restringindo o campo de articulação das forças de sustentação parlamentar do governo de Dilma Rousseff. No contexto, vai crescendo o preço a ser pago pelo Palácio do Planalto para reconquistar o apoio de segmentos do governismo, hoje rebelados.

Mesmo sob este assédio político, o governo federal controla a pauta nacional, por que – entre outros fatores – a reeleição da Presidente da República mantem-se como uma ideia-força da presente conjuntura. A pesquisa divulgada na última quinta-feira – pelo Ibope – é uma comprovação deste fenômeno. Dilma seria a opção eleitoral de 40% dos entrevistados pelo instituto (em um dos cenários da enquete). A oposição, comandada por meia dúzia de legendas adversárias do projeto reeleitoral (PSDB/DEM/PPS, PSB, PSC, PSoL, PCB), somaria cerca de 1/4 do eleitorado brasileiro, número insuficiente para sequer levar a disputa para o 2* turno.

Um dado relevante a merecer destaque nesta enquete do Ibope: o desalento de parcela significativa do eleitorado, que parece insatisfeita com o cardápio que os partidos estão a oferecer para o pleito de outubro deste ano. Cerca de 1/3 dos entrevistados, estimulados pela pesquisa, não têm preferência por nenhum dos nomes citados, optando pelo voto nulo ou branco (ou então dizendo não saber em quem votar em outubro). Estaria, assim, aberto o campo para o surgimento de alguma nova candidatura, interessada em mobilizar o eleitor que hoje está desmotivado eleitoralmente.

Se em 2002 a propaganda eleitoral estava centrada na consigna “a esperança deve vencer o medo”, será que agora um certo desalento eleitoral constituirá uma das características da eleição de 2014?

Créditos de imagem: thehoopoesodyssey.blogspot.com

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