Em Análises e Reflexões, Destaques

Por R.W. Johnson

“Mas gênero não é identidade de coesão em termos eleitorais. Na hora de as mulheres decidirem o próprio voto sempre predominam as divisões por classe e por etnia. (…) 2016 foi a eleição em que o peso da classe se fez ver mais claramente que em todas as eleições anteriores desde o New Deal. (…)

A velha classe política foi derrubada. Clinton ainda mantém os ricos, mas perdeu a classe trabalhadora. Os trabalhistas ingleses ganham Londres, a porção mais rica do Reino Unido, mas perderam os trabalhadores para o Partido Independente e para o Partido Nacional Escocês. Estamos em território ainda não mapeado.

(…) Clintons e Blairs surfaram por cima das dores e das desigualdades sociais, cuidando de enriquecer e deixando os eleitores para trás, comendo o pão que o diabo amassou. A classe trabalhadora percebeu esse ‘desenvolvimento’, e aí está uma das razões pelas quais a velha política já não funciona.”

Por mais que estejamos frustrados ou desgostosos com o resultado da eleição nos EUA, 2016 seria quase com certeza absoluta ano Republicano. Se se examinam os governos no pós-guerra que cumpriram dois mandatos e, em seguida, quem venceu as eleições de meio de mandato no sexto ano, torna-se muito fácil prever quem vencerá a presidencial dois anos depois, exceto em um ou dois casos.

Em 2014 os Republicanos derrotaram pesadamente os Democratas, ganhando nove novos lugares no Senado, o que lhes garantiu clara maioria nas duas casas. Levando-se em conta exclusivamente esse dado, nenhum outro, já se poderia prever que qualquer candidato Republicano teria vencido em 2016. Se se acrescenta que os Republicanos foram às eleições com o partido ocupando o governo de 31 dos 50 estados – fato de grande peso, porque a administração desses estados é efetivamente entregue ao partido do governador – 2016 seria ano de sucesso garantido para qualquer Mitt Romney ou John McCain, sobretudo contra candidata tão impopular quanto Hillary Clinton.

Um segundo ponto: quando Lyndon Johnson sancionou a Lei dos Direitos Civis em 1964, e a Lei dos Direitos de Votar em 1965, disse, com lástima, que os Democratas perderiam o Sul por uma geração inteira. O tempo comprovou que estava certo. Uma geração adiante, em 2008 e 2012, os EUA elegeram um presidente afro-norte-americano. Os norte-americanos também viram um afro-norte-americano no cargo de Advogado Geral (Eric Holder) e uma embaixadora afro-norte-americana na ONU (Susan Rice, hoje Conselheira de Segurança Nacional). Os norte-americanos brancos são sempre lembrados – corretamente – de que constituem grupo que está diminuindo e que o futuro pertence a minorias de afro-norte-americanos, latinos e asiáticos. Talvez tenhamos assistido à derradeira eleição.

O fracasso do Sonho Americano, como nos repetem sempre, produziu uma revolta popular de proporções vulcânicas. No coração do problema está a estagnação dos salários reais e a nenhuma mobilidade social, pelo menos para cima, com os custos da educação superior já perdidos de vista. Os dados são persuasivos.

Entre 1948 e 1973, a produtividade aumentou 96,7% e os salários reais, 91,3%, quase exatamente ao mesmo ritmo. Eram dias de pleno emprego para capacetes-de-aço da construção civil e da indústria de automóveis, quando os trabalhadores podiam mandar os filhos à universidade e vê-los ascender à classe superior.

Mas de 1973 a 2015 – a era da globalização, quando muitos daqueles empregos desapareceram longe dos EUA – a produtividade cresceu 73,4%, mas os salários, apenas 11,1%. Trump argumentou que a causa seriam a imigração ilegal sem qualquer restrição e a transferência dos empregos para o exterior, embora essas fossem apenas causas parciais. A erosão dos sindicatos responde provavelmente por 25-30% da perda líquida no poder de compra.

Os 11 milhões de imigrantes ilegais nos EUA são apenas uma parte da vasta massa de trabalhadores não sindicalizados que competem por empregos.

Em qualquer democracia de massas, isso já indicaria problemas à vista, mas o processo permaneceu mascarado durante algum tempo, por número maior de mulheres que passaram a trabalhar, gerando dupla renda para as famílias e, depois, com muitos trabalhadores empregados em dois ou três empregos, todos precários.

Mais cedo ou mais tarde, o peso dessa espiral descendente teria de ser sentido, e os resultados são mais que visíveis. Viaje de carro pelos EUA, e você verá quem opera as bombas nos postos de gasolina: cada vez mais são homens brancos e mulheres já chegadas aos 70 anos, aposentados, todos na luta para arranjar mais alguns dólares. Dificilmente essas pessoas deixariam de se impressionar pelo esfuziante desfile de celebridades nos comícios de Hillary Clinton – Beyoncé, Katy Perry, Lady Gaga, Jennifer Lopez, Bruce Springsteen etc.

Os franceses usam a expressão ‘la richesse insultante’ [a riqueza insultante]’. O que significa para aposentados e ‘encostados’ da assistência pública passar por vitrines onde se exibem relógios, sapatos, vestidos com etiquetas de milhares de dólares? Cada etiqueta diz “Você é nada. Você perdeu.”

Não há qualquer sinal de que a tendência a desigualdade cada vez maior esteja perdendo fôlego (e governo Trump que corte impostos dos ricos só fará acelerar aquela tendência). Desde 2000 os salários pagos a formados em curso universitário só fazem cair. Para os homens, os salários subiram um pouco; mas para mulheres despencaram, em queda muito acentuada. A situação é ainda pior na base da pirâmide: entre 1979 e 2013, os 10% mais mal pagos sofreram a maior redução nos salários dentre todos os estratos analisados. Ao mesmo tempo, os empregadores cortaram benefícios de atendimento à saúde.

Em 2011, só 50% dos egressos do curso secundário [ing. high school graduates – a peculiar expressão em inglês norte-americano para designar os que não têm formação universitária ou ascendem à classe superior] recebiam auxílio-saúde (em 2000, eram 67%); e só 76% dos graduados em universidade (em 2000, 84%).

Outro número revelador. Na média, em 1965 um alto executivo de grande empresa recebia o equivalente a 20 vezes o que recebia um trabalhador. Em 2013, na média, o mesmo alto executivo recebia 296 vezes o salário do trabalhador.

Marx previu concentração cada vez maior de capital, acompanhada pela pauperização da classe trabalhadora. Mas o que se viu nos EUA foi diferente do que Marx previu: viu-se a ascensão da demagogia de direita.

A natureza elemental dessa revolta das classes trabalhadora e média explica por que muitos dos apoiadores de Trump mostraram-se impermeáveis ao seu comportamento grosseiro e desejo de ofender. Coisas que talvez tivessem feito naufragar outros candidatos e desde o início, não o fizeram naufragar. Clinton gastou muito milhões de dólares em propaganda negativa contra Trump, aparentemente sem qualquer efeito.

Depois da derrota de Romney em 2012 os Republicanos concluíram que tinham de aumentar o apelo às minorias étnicas, mulheres e jovens, ou o partido acabaria marginalizado. Todos concordavam que, sim, que era necessário aprofundar o apelo àquelas minorias. Mas acabaram no extremo oposto: com um candidato que é anátema para todos esses grupos. Por quê? Porque os que votaram nas primárias do partido eram ‘velhos’ Republicanos, não os ‘novos’ Republicanos que o partido esperava atrair. Mas, nesse ponto, Trump fez algo notável: ignorou quase todas as regras do jogo.

Trump não se preparou para debates presidenciais, os quais foram facilmente vencidos por Clinton. Gastou mais em bonés de beisebol com ‘Make America Great Again’ [Façam os EUA novamente grandes], do que em pesquisas de opinião. E nenhum ponto do país teve organização de campanha em campo sequer comparável à de Clinton, para obter votos. No total, gastou apenas metade do que Clinton consumiu, e passou a depender de projetar sua campanha como uma cruzada, um ‘movimento’. Como todos os candidatos populares bem-sucedidos, Trump prometeu trazer de volta o passado.

O sucesso de Bernie Sanders mostrou que a indicação dos Democratas estaria aberta a alguém muito mais à esquerda, que Clinton. Ela derrotou Sanders exclusivamente porque tinha organização muito melhor e muitíssimo mais dinheiro; seu rolo compressor estava preparado com anos de antecedência e ela tinha monopólio virtual dos superdelegados. Se da próxima vez concorrer um/uma Democrata da ala esquerda do partido como Elizabeth Warren não enfrentará opositor semelhante à Clinton.

Sanders poderia ter derrotado Trump. E, por mais que causasse uma guerra civil dentro do partido Democrata, dado o direito ‘divino’ assegurado ao carro alegórico de Clinton, Obama parece ter errado a manobra, ao desencorajar a candidatura de Joe Biden. Biden sempre manteve boa relação com eleitores da classe trabalhadora e provavelmente derrotaria Trump por boa margem. A melhor chance de Clinton aconteceu em 2008; ela bem faria se pendurasse as sapatilhas depois daquilo.

Em 1992, Ross Perot previu que, quando fosse assinado o acordo NAFTA [North American Free Trade Agreement; Tratado de Livre Comércio da América do Norte (EUA, Canadá e México)], os norte-americanos ouviriam um ‘chiado gigante de sucção’, quando os empregos norte-americanos atravessassem a fronteira para o lado mexicano. Não há dúvidas de que aconteceu exatamente assim.

Por mais que economistas digam que os tratado foi benéfico para os EUA, todos os benefícios ficaram com os mais ricos, e os trabalhadores apenas perderam empregos. O resultado foi vasta perda de fé no livre mercado, no livre comércio e na globalização. Ambos, Sanders e Trump atacaram o NAFTA e outros tratados de comércio ainda pendentes; e Clinton teve de mudar de toada e fazer o mesmo. Foi apenas, claramente, mais um sinal de que o que funcionara para Bill Clinton vinte e tantos anos atrás já não funcionaria hoje.

Durante a campanha, Debbie Dingell, congressista Democrata representante do 12º distrito de Michigan, repetidas vezes alertou Clinton (a quem Dingell apoiou) de que Michigan não estava decidido; e que Trump tinha boas chances de vencer. Muitos riram dela: Michigan sempre foi solidamente Democrata durante os últimos 80 anos. Dingell ficou ‘furiosa’ por Clinton não dar qualquer atenção a Michigan até o último fim-de-semana antes da primária; até ali, Sanders já visitara dez vezes o distrito. Os operários da indústria automobilística penderam firmemente para o lado de Sanders, que venceu aquela primária. Daquele momento em diante, Dingell passou a temer que eles – e Michigan – votassem em Trump, o que eles efetivamente fizeram.

“O operário comum homem ou mulher nesse país não pede muito” – disse Dingell. – “Querem poder viver decentemente. Querem prover a as necessidades da família, comprar uma casa em bairro seguro, pôr comida na mesa, poder ir ao médico quando preciso, poder pagar pelos medicamentos e dar educação aos filhos. O que muitos ainda não entenderam é o quanto essas coisas começar a se tornar inalcançáveis para número já grande demais de norte-americanos.”

Não era ‘literatura’, nem Dingell estava brincando. A renda média de graduados no 2º grau caiu 13% entre 2000 e 2014. Na campanha, Sanders usou como exemplo a United Technologies, empresa gigante que vive de muitos contratos com o governo. Em fevereiro de 2016 UT anunciou o fechamento de duas fábricas em Indiana, ambas lucrativas. As fábricas foram transferidas para o México, onde os salários eram muito mais baratos, e a empresa tornou-se super lucrativa. O presidente da empresa recebeu mais de $10 milhões no ano passado. “Ninguém consegue compreender uma coisa dessas”, como disse Sanders. Indiana votara em Obama em 2008, mas agora Trump venceu com quase 20 pontos de vantagem.

As pesquisas de opinião enfrentaram sempre um grande bloco de votantes que declaravam não gostar nem de Clinton nem de Trump. Tudo indica que esses votos correram fartamente na direção de Trump. Clinton, por sua vez, desde o início focou as mulheres. Os comícios dela eram comícios de mulheres na grande maioria; 60% dos doadores de Clinton eram mulheres e, até metade da campanha a tática parecia estar funcionando, pelo menos entre mulheres das classes alta e média alta. Pela primeira vez em todos os tempos um Democrata candidato(a) à indicação do partido liderou nas preferências das faixas de formados em curso superior e de renda anual superior a $100 mil.

Mas gênero não é identidade de coesão em termos eleitorais. Na hora de as mulheres decidirem o próprio voto sempre predominam as divisões por classe e por etnia.

Foi fenômeno muito visível quando os eleitores começaram a decidir o próprio voto. As questões cruciais na pauta social foram raça, armas e imigração. Mudança climática aparece bem abaixo na lista das preocupações populares. Clinton e Obama deram muita atenção à questão ‘climática’, mas o baixo peso que tinha no universo das preocupações de muitos norte-americanos implicava que pouco havia a ganhar em termos eleitorais. Por sua vez, eleitores nos estados que dependem de petróleo, carvão ou fracking, sim, tendiam a dar ênfase à mudança climática como fator de ameaça contra a própria existência. Todos esses estados votaram em Trump. Muito frequentemente se viam trabalhadores petroleiros no gabinete dele.

Segundo pesquisas de boca de urna, Trump venceu Clinton na proporção de 2:1 entre brancos com diploma universitário; mas graduados do 2º grau dividiram-se exatamente ao meio, 50-50. Só entre brancos com diploma universitário houve maioria pró-Democratas, exatamente como sempre tem sido desde 1988. Clinton venceu Trump entre as mulheres por 54-42, diferença que foi contrabalança nos números pró Clinton entre os homens: 41-53. Feitas as contas, menos mulheres votaram em Clinton que em Obama. Afro-norte-americanos votaram em Clinton na proporção de 88:8 – mas na eleição de Obama a proporção foi de 93:6; também aí os Democratas encolheram. Clinton investiu grandes esperanças nas mulheres latinas; no fim, teve o voto de apenas 68%, contra 76% a favor de Obama.

2016 foi a eleição em que o peso da classe se fez ver mais claramente que em todas as eleições anteriores desde o New Deal. Pesquisas da rede Fox News mostram como cresceu a onda pró-Trump entre homens brancos sem diploma universitário. Duas semanas antes da votação, Trump era o favorito na proporção de 48:32 (+16); uma semana antes, a diferença subira para 53:32 (+21); e no dia da votação foi de 61:20, esmagadora margem de 41 pontos: os estados do Rust Belt [Cinturão da Ferrugem, também chamado Cinturão da Fábricas] haviam-se decidido a favor de Trump.

Interessante: mulheres brancas sem diploma universitário preferiam majoritariamente Trump na proporção de 58:31, uma semana antes da votação; mas passaram-se para Clinton na última semana; no dia da votação já eram 53:32 (embora de fato tenha sido mais um movimento para se afastar de Trump, que para se aproximar de Clinton). Seja como for, a relação de classe predominou sobre a definição por gênero.

Só na última semana o movimento massivo da classe trabalhadora na direção de Trump realmente ganhou força, quando se foram decidindo os votos das faixas “não sei” e “cada um pior que o outro”: um movimento de último momento que apanhou desprevenidas as empresas de pesquisas e, de fato, também o campo trumpista (que já tinha pronto o discurso de reconhecer Clinton vencedora, mas não tinham discurso de novo presidente eleito).

Muito se tem dito sobre semelhanças entre o Brexit e a vitória de Trump. Como Peggy Noonan escreveu no Wall Street Journal, os dois eventos foram “um levante dos desamparados”. A velha classe política foi derrubada. Clinton ainda mantém os ricos, mas perdeu a classe trabalhadora. Os trabalhistas ingleses ganham Londres, a porção mais rica do Reino Unido, mas perderam os trabalhadores para o Partido Independente e para o Partido Nacional Escocês. Estamos em território ainda não mapeado.

Há uma evidência que os dois partidos, Trabalhista britânico e Democrata nos EUA devem considerar: quando Bill e Hillary chegaram a Washington em 1992 tinham pouco dinheiro. Hoje, apesar de terem trabalhado, pelo menos teoricamente, exclusivamente no serviço público desde então, o casal vale muitos milhões de dólares. Tony e Cherie Blair não eram obscenamente ricos quando chegaram ao poder em 1997. Hoje, valem mais de $75 milhões. Agora, considerem os trabalhadores eleitores que os Clintons ou os Blairs exortaram a elegê-los nos anos 1990s: provavelmente, estão em muito pior situação hoje que naquele momento.

Verdade é que Clintons e Blairs surfaram por cima das dores e das desigualdades sociais, cuidando de enriquecer e deixando os eleitores para trás, comendo o pão que o diabo amassou. A classe trabalhadora percebeu esse ‘desenvolvimento’, e aí está uma das razões pelas quais a velha política já não funciona.

Tradução: Coletivo Vila Vudu.

Blog do Alok [http://blogdoalok.blogspot.com.br/]:16/11/2016.

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R.W. Johnson. Jornalista. Cientista Político e Historiador.

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