Em Destaques, Literatura

Por Oswaldo Porchat Pereira

Rogério Cerqueira Leite nos oferece sua autobiografia. De leitura agradável, ela captura nossa atenção e não queremos interrompê-la antes de chegar ao fim. O livro é escrito com humor, o texto por vezes é muito engraçado, fazendo-nos  rir. Inúmeras passagens são escritas com grande ironia, fina no mais das vezes, algumas vezes não tão fina. Do começo ao fim, o texto transborda sinceridade. E aprendemos muito com ele. Em verdade, eu o considero um pequeno grande livro.

Reconheço que sou totalmente suspeito para fazer esse elogio. Rogério é um dos meus maiores amigos, conhecemo-nos desde 1949, ao longo de 67 anos encontramo-nos com grande frequência, no Brasil e no exterior. E continuamos, com grande frequência, a encontrar-nos. Tenho por Rogério uma grande admiração e não somente no plano intelectual.

Não sou, porém, daqueles que não conseguem enxergar os defeitos de seus amigos. Rogério tem defeitos, ele não procura escondê-los e é o primeiro a confessá-los com sinceridade e bom humor. Mas todos convirão em que não me cabe falar deles aqui.

Rogério é e sempre foi extremamente fiel a seus amigos, sempre fez tudo que podia para ajudá-los.   Sempre foi capaz de amizades profundas e sempre procedeu com grande magnanimidade com relação aos amigos. Alguns amigos o traíram. Rogério os perdoou e fala disso no livro, com ironia e alguma maldade: “Minha vingança foi perdoá-los. O perdão é cruel. Aprendi com Cristo.” (cf. p. 137).

Ao longo do livro, a família de Rogério com frequência comparece. Dela ele fala com grande carinho. E expressamente diz: “Sempre deixei claro para meus filhos que os queria perto de mim e que nada me era mais importante que a felicidade deles.” (cf. p. 27). Rogério teve a felicidade de sempre poder contar com o apoio decidido de sua esposa Ruth. Lendo o livro, fica-nos claro que, sem o apoio e a compreensão de Ruth, não lhe teria sido possível realizar tudo quanto realizou.

A música foi, desde a adolescência, uma de suas grandes paixões e desempenhou um papel importante em sua vida. Lendo-o, damo-nos conta de sua extraordinária cultura musical e literária.

Mas damo-nos conta, também, se abordamos sua opção política, de sua repugnância visceral ao fascismo, sob todas as formas que este pode assumir. Rogério combateu-o continuadamente, não sem correr sérios riscos. E fez campanha contra o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha.

Rogério era físico e sua atividade científica foi realmente espetacular, como a leitura de Um aprendiz de Quixote nos faz ver. Graduado como engenheiro eletrônico no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), ele fez seu doutoramento em Física na Sorbonne e trabalhou por muitos anos na Bell, perto de Nova Iorque. Do ponto de vista da atividade científica, ele aí viveu o apogeu de sua carreira. Em dois anos, publicou 20 trabalhos em renomadas revistas científicas e fez algumas  importantes descobertas na área de sua especialidade. Por suas publicações e por suas descobertas, ele se tornou  um físico mundialmente reconhecido e respeitado. Seus trabalhos foram citados alguns milhares de vezes (repito: literalmente alguns milhares de vezes) nas revistas  especializadas.

De volta ao Brasil, Rogério foi por muitos anos professor da UNICAMP, onde também exerceu o cargo de Coordenador Geral das Faculdades. A UNICAMP foi por ele radicalmente transformada. Ele foi Diretor do Instituto de Física, que ele inteiramente reorganizou, criou o Instituto de Artes, também o Instituto de Geo-Ciências, o Núcleo de Energia. Graças a ele e ao seu decidido apoio, foi também criado o Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência. E Rogério trouxe para a UNICAMP dezenas de professores e especialistas de diferentes áreas, brasileiros e estrangeiros, estes também em grande número.           

No exercício de seus cargos, ele não hesitou em sumariamente demitir professores que considerava medíocres. De um modo que as más línguas poderiam chamar de quixotesco, mas que, entretanto, correspondeu verdadeiramente à sua atuação na Universidade, ele escreve: “Resolvi aceitar o combate à mediocridade como missão. E este foi o meu destino então e sempre. (cf. p. 119) E acrescenta:  “Convenci-me então de que o grande mal para a humanidade é o corporativismo dos medíocres, que se agregam em defesa da própria sobrevivência, de seus interesses pessoais.” (ibid.) E Rogério provoca “Burrice é pecado.” (cf. p. 141). Ele jamais contemporizou com as “regras estúpidas que ainda imperavam na universidade brasileira  e que serviam apenas à proteção dos medíocres, dos incapazes de criar, de competir, de pensar.” (ibid.)

Como é fácil de compreender, Rogério fez inimigos ao longo de sua vida, dentro e fora da Universidade. E ele é implacável para com eles, chegando a ser agressivo. Assim, por exemplo, com referência a alguns professores da USP que tinham aceito servir a um Reitor da UNICAMP como interventores em Institutos e Faculdades, Rogério classificou-os como “reserva imoral da USP”. (cf. p. 132). E não hesita em afirmar: “…medíocres, incompetentes e pedantes me detestam. Ainda bem.” (cf. p. 20) Naturalmente, teve de enfrentar grandes brigas, ainda mais por conta de sua índole inegavelmente polêmica. Ele reconhece com humor: “Sempre gostei de uma briguinha.” (cf. p.112)

Durante alguns anos, ele ocupou a vice-presidência executiva da CPFL. E, introduzindo grandes inovações, a transformou em uma empresa de energia em geral, criando um departamento de energias alternativas. A partir de 1982, desenvolveu um programa cultural, organizando uma série de conferências e concertos. Criou uma biblioteca ambulante em Campinas. A Companhia produziu a gravação dos cinco concertos para piano de Villa-Lobos, até então inéditos. Rogério comenta:  “hoje essa prática é quase universal. Mas, à época, foi considerada um verdadeiro sacrilégio.” (cf. p. 187)

A menina dos olhos de Rogério foi certamente a Codetec (Companhia de Desenvolvimento Tecnológico), fruto de sua ideia de “criar uma empresa estatal que atuaria como uma plataforma para que professores da UNICAMP transformassem os resultados de suas pesquisas em inovação.” Com vários e importantes apoios, a Codetec tornou-se  “a primeira incubadora de empresas do mundo”. (cf. p. 141-4)

Nos inícios da década de 1980, Cylon Gonçalves da Silva, um físico brilhante, procura Rogério e lhe fala do “marasmo em que caíra o projeto de um síncroton para produção de radiação eletromagnética”. Tendo o CNPq decidido que o projeto se desenvolvesse em Campinas, Rogério encarrega Cylon da implantação do projeto Síncroton e este o implanta com grande sucesso. Rogério comenta: “Não fosse pela obstinada dedicação de Cylon Gonçalves da Silva, o Síncroton não existiria hoje.” (cf. p. 145-7)

Rogério tornou-se amigo de Otávio Frias, proprietário e diretor da Folha de São Paulo, essa amizade estendeu-se a Otávio Frias Filho. A Folha mantém suas portas abertas para os seus artigos, por vezes bastante virulentos. Esses artigos o envolveram em grandes polêmicas: “Minhas polêmicas só me renderam inimigos. Há, porém, indivíduos que é mais salutar ter como inimigos que como amigos.” (cf. p. 166) Quando preciso, Rogério nunca se acanhou de mostrar que o rei estava nu.

Além de sua polêmica contra o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, ele lutou contra o Sivam (o Sistema de Vigilância da Amazônia), nos termos acordados entre o Brasil e os Estados Unidos e foi convidado a expor seu ponto de vista no Congresso Nacional. O acordo foi, entretanto, assinado e sem transferência de tecnologia. (cf. p. 167-­8)

Outra polêmica disse respeito à reserva do mercado de informática, que era garantida por lei. Rogério é novamente convocado para defender a referida lei no Congresso Nacional.  Perdeu a batalha e uma nova lei de patentes foi aprovada,  que sacrificou a indústria nacional de informática.  (cf. p. 168-71) Outra polêmica ainda teve como foco a distinção entre empresa de capital nacional e de capital externo. Com a revisão da lei de patentes, fármacos produzidos no exterior passaram a ser considerados como se fossem produzidos no Brasil, bastando satisfazer algumas formalidades burocráticas. Rogério fez uma campanha de esclarecimento sobre as vantagens do remédio genérico. Mas a promulgação de uma nova Lei de patentes levou ao extermínio da indústria de fármacos no Brasil. (cf. p. 170-2)

Ele nos conta como propugnou pelo Proálcool (Programa Nacional do Álcool), instalado durante o governo Geisel. E como uma “verdadeira guerra” foi lançada contra o Programa, que acabou derrotado. Os políticos não compreenderam que estavam em jogo os interesses do Brasil. (cf. p. 173-4) Outra derrota ocorreu no caso do quartzo. “O Brasil era praticamente o único produtor do quartzo de primeira.” Rogério fez uma campanha pelo aumento do preço de exportação do quartzo. O Brasil estava nas mãos das empresas alemãs, francesas e americanas. E assim continuou, graças à atuação de políticos brasileiros. (cf. p. 175-7).

De tudo isso é fácil depreender que Rogério Cerqueira Leite não foi apenas um cientista mundialmente reconhecido. Ele também teve uma enorme e reconhecida participação na vida político-econômica do país, à qual sempre esteve umbilicalmente ligado. Acompanhando sua vida, aprendemos muito sobre a história recente do Brasil.

Os grandes nomes da política nacional o consultaram com grande frequência e o trataram sempre de igual para igual. Ministros, governadores, secretários de Estado, prefeitos sempre o procuraram. Tancredo Neves várias vezes lhe telefonou e o encarregou de fazer o plano de energia para seu governo. Aureliano Chaves dispôs-se a vir à Campinas para conversar com ele. Montoro e Covas eram familiares com ele. Muito antes de todos esses, Prestes, Niemeyer, Severo Gomes e Brizola o tinham procurado e Brizola tinha querido apoiá-lo para prefeito de Campinas.

Rogério fez muito pelo Brasil. A presidente Dilma, ao receber em palácio os participantes do Conselho de Ciência e Tecnologia, disse que era para ela uma honra presidir um Conselho que tinha Rogério como membro. O pronunciamento da Presidente não tinha cunho ideológico. Mas Rogério o omitiu em seu livro.

Ele recusou uma carreira brilhante nos Estados Unidos porque ficaria obrigado a ter de radicar-se lá permanentemente e, por assim dizer, a tornar-se meio americano. Optou por voltar para o Brasil. “Eu era brasileiro. Meu país estava lá…” (cf. p. 111-2)

Rogério é um patriota. Infelizmente, o termo parece estar um pouco em desuso, sobretudo entre os bem-pensantes. Quase como se fosse ingênuo, quase como se fosse ridículo falar de patriotismo. Como se somente se cultivasse o patriotismo nos meios militares.

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Oswaldo Porchat Pereira. Filósofo. É professor Emérito da Unicamp.

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