Em Destaques, Miscelânea

Era governo Geisel. O mundo despertava para a necessidade de capacitação tecnológica como alicerce essencial para o progresso e para o desenvolvimento econômico, para a redução da pobreza dos países pobres ditos então do terceiro mundo. A Organização das Nações Unidas patrocinava uma grande conferência internacional exatamente sobre este tema, transferência de tecnologia para os subdesenvolvidos. Foi encarregado da coordenação do evento o Embaixador brasileiro na ONU, Frank da Costa, um brilhante intelectual. Todavia, embora experiente em questões internacionais, não era um especialista em Ciência e Tecnologia. Estava para acontecer uma reunião da Comissão organizadora que fecharia o programa. Fui enviado para assessorá-lo.

Esta Comissão era composta exclusivamente por principais CEOs (Chef Executive Officers, CEO) de grandes corporações europeias, americanas e japonesas, que tinham filiais em países em desenvolvimento. Dois ou três deles abriram o encontro com dizeres que pareciam consensuais. Suas empresas exerciam um papel determinante na capacitação tecnológica dos países hospedeiros. E o pior é que pareciam acreditar nesta balela. Criei coragem. Pedi a palavra: “Acredito e tenho argumentos que provam justamente o contrário. A presença de filiais de corporações multinacionais inibem, impedem mesmo o desenvolvimento tecnológico dos países em desenvolvimento, seus hospedeiros”, disse eu.

A vaia foi unânime e uníssona. Lembrem-se que a esta época, ainda anos setenta, vaia era coisa de jogador de futebol, de grevistas. Não era costume de colarinhos brancos e muito menos de representantes do grande capital. Fiquei por um momento atônito, paralisado. Criei coragem, continuei: “É a lógica inexorável, pois é a própria penúria de tecnologia própria ou de outro fator qualquer, como por exemplo capital que justifica a cessão de mercados internos a uma empresa estrangeira. Ora, nenhuma multinacional é tão inepta assim que proporcione condições que a torne dispensável. Eis por que mantem seus centros de pesquisas e desenvolvimento inacessíveis, junto a suas matrizes, em seus países de origem, limitando-se a ceder simples instruções para operação para suas filiais”. Ouviram-me, mas não me aplaudiram. Não fui convidado para falar ou mesmo assistir à conferência.

E agora, na mesma linha, vou ser vaiado mais uma vez, devido à mesma obsessão. Apoiei entusiasticamente a proposta de criação de um reator nuclear multipropósito. Seria a oportunidade para recuperar, pelo menos parcialmente, o imenso e anunciado atraso em tecnologia própria no setor nuclear a que o Acordo Brasil-Alemanha nos condenou. A única exceção a essa histórica calamidade foi o projeto de ultra centrífugas que a Marinha Brasileira patrocinou e que está hoje aparentemente paralisado.

Pois não é que esta oportunidade única para capacitar minimamente o Brasil no campo nuclear é desperdiçada? Contratam uma empresa argentina para realizar o projeto. A explicação dos responsáveis é, por inacreditável que seja, de que não temos experiência. Ora, será que não percebem que estão condenando-se a si e a seus sucessores a dizerem eternamente a mesma frase: “não somos capazes”. Se todos fossem assim não teríamos a Embraer, a Embrapa, o pre-sal. Não estaríamos construindo o Sirius, um Sincrotron de 4ª geração, o mais avançado equipamento de uso científico do mundo. E se hoje podemos assim ousar é porque há trinta anos não recuamos em projetar e construir, autonomamente, o primeiro Sincrotron de 2ª geração da época. Somente a pesquisa própria poderá capacitar tecnicamente o Brasil de maneira a ter uma produção industrial própria, competitiva, socialmente consequente. E vou continuar dizendo isto, não importa quantas vaias vierem, valham elas o que valerem.


Imagem: www.tuck.dartmouth.edu

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