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Um leitor, aparentemente insatisfeito com meus comentários sobre as origens da ópera em artigo publicado nessa coluna há pouco mais de um mês*, em que atribuí a Jacopo Peri, Banchieri e seus contemporâneos da Escola Florentina as concepções estéticas que fundamentam a estrutura da ópera, lembra-me os dramas litúrgicos dos séculos XI e XII, os quais considera como verdadeiro início dessa forma de composição musical.

Contudo, não há nenhuma vertente dominante que ligue os dramas litúrgicos da Idade Média à Escola de Florença. O retorno a uma forma de expressão fundamentalmente homofônica surgiu como reação aos excessos polifônicos do madrigal do século XVI, e é quase certo que os artistas que iniciaram essa revolução não conheciam os dramas litúrgicos Medievais, já banidos havia quatro séculos. Além do mais, há maior distância harmônica entre a espontânea monodia acompanhada dos séculos XI e XII e a sofisticada homofonia da Escola de Florença do que entre essa última e a requintada polifonia dos séculos XV e XVI.

A única rota evolutiva possível entre o drama litúrgico Medieval e a ópera homofônica de Florença passaria necessariamente pelo madrigal, onde todos os estilos, desde as trovas populares, as danças, os hinos religiosos e talvez também o drama litúrgico se mesclaram durante os séculos XIV e XV.

A rigidez do Canto Gregoriano uniformizado e disciplinado pelo papado desde o século V até o VIII, subtraía ao serviço religioso católico o atrativo que era oferecido pelo culto Bizantino, por exemplo, em que uma expressiva dramatização da missa era adotada.

No século X, talvez para manter a própria competitividade, passaram a ser admitidas progressivas extensões ornamentais, inclusive versos dialogados por dois ou mais grupos vocais ou solos. Esse aditivo, geralmente com a estrutura de organum ou conductus, era chamado trope e lentamente se desenvolveu em verdadeiro drama musical e teatral, incluindo gestos e movimentos. No século XII já haviam essas obras se desvencilhado do Kyrie e da própria missa. Do coro passou para o vestíbulo e em seguida para as ruas, para os mercados, embora mantivesse o caráter religioso e moralista apesar de competir com jograis e menestréis.

Os poucos manuscritos que nos chegaram são bastante imprecisos, havendo grande incerteza quanto aos ritmos e aos acompanhamentos instrumentais. Os manuscritos são quase sempre notações baseadas em neumas, mas, superpostas ao texto literário quase sempre durante o século XIII, quando esses espetáculos já haviam caído em desuso. O trabalho de restauração é, portanto, extremamente complexo, e envolve um acentuado grau de arbitrariedade. É preciso lembrar que até meados do século XII não havia meios adequados para o registro musical e que a tradição tinha um papel importante. Assim sendo, toda interpretação moderna depende essencialmente de pronunciada competência musicológica e de grande sensibilidade dos restauradores e dos intérpretes.

Se alguém quiser considerar essas peças como as primeiras óperas, tudo bem. Entretanto, é preciso reconhecer que esse caminho foi interrompido e que um novo estilo surgiu independente no século XVI, o qual, por transformações sucessivas, mas sem solução de continuidade, evoluiu até Wagner e Alban Berg. É verdade que com alguns acidentes de percurso, como Puccini, por exemplo, mas de maneira bastante consistente, por toda sua história.

Com quase toda certeza, foi em 1958 em Nova York que, pela primeira vez, depois do século XII foi apresentada publicamente a Representação de Daniel em sua totalidade musical e teatral. A restauração feita por Noah Greenberg e os integrantes do Nova York Pro Musica mereceria poucos reparos, mesmo à vista de impressionante progresso musicológico a respeito da música Medieval durante essas últimas duas décadas. Uma gravação da Representação de Daniel com esse grupo data dos anos 60 e é ainda encontrável.

Experiência extremamente rica pode ser vivida pelo leitor que se dispuser a fazer uma comparação entre a versão do Pro Musica da Representação de Daniel com outra bem mais recente e academicamente melhor estruturada: do Pro Cantione Antiqua, em conjunto com o Consort Landini, pois será possível verificar o quanto evoluiu a musicologia em pouco mais que uma década.

Um segundo drama foi reabilitado por Noah Greenberg e seu Pro Musica de Nova York. Mais solene e introspectivo do que a de Daniel, a Representação de Herodes é, no entanto, testemunho eloquente sobre a cultura Medieval e suas ambivalências morais. O assunto ficará um pouco mais claro quando discutirmos proximamente, a música profana dos séculos XII e XIII**.

Do ponto de vista acadêmico, talvez a melhor interpretação de qualquer dos dramas litúrgicos Medievais seja a lançada recentemente pelo Studio der frühen Musik com o conjunto Guillaume Dufay, sob a direção de Binkley, de Os Milagres de São Nicolau, que inclui o Tres Filiae e o Iconia. Versão extremamente feliz, embora sem o brilho e o entusiasmo do Pro Cantione Antiqua e do Consort Landini na edição da Representação de Daniel.

*Ver artigo: “O nascimento da Ópera” – 04/11/1984

**Ver artigo: “Música profana no cancioneiro da Idade Média” – 23/12/1984

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 16/12/1984.

The Play Of Daniel (Part I of II) – A Twelfth Century Musical Drama

The New York Pro Musica Musical director was Noah Greenberg

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https://www.youtube.com/watch?v=rXyK7yVwBVA


Imagem: timeout.com

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