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“Aquele que, dizendo as coisas pela metade, me permitir enxertar meu sonho sobre o seu; aquele que conceberá personagens cujas histórias e moradas não pertencerão a qualquer tempo ou a qualquer lugar; aquele que não irá impor-me despoticamente o cenário preconcebido e que me deixará livre, aqui e lá, para realizar melhor arte que ele próprio e aperfeiçoar sua obra”, este, nas palavras do próprio Debussy, seria o seu libretista ideal. Essa particular disposição explicaria talvez a escolha do texto retórico e impotente de Maeterlinck. Mas não teria sido esta a atitude adotada também por Schubert na maioria de seus Liedeir? Intuitivamente, talvez? E por que teria Debussy escolhido um texto tão parecido com o “Tristão e Isolda” de Wagner? Afinal, não era Wagner quem deveria ser derrotado? Então por que recorrer ao “leit-motiv”—à sua própria maneira, é verdade — mas inquestionavelmente um recurso wagneriano? E esse policromatismo virtuosístico? Afinal, nunca mais viria insistir Debussy nesta receita tão cara a Wagner. Debussy realmente não chegou a ser a antítese de Wagner, pelo menos no que diz respeito a “Pelléas et Melissande”. Talvez em “La Mer” ou em “Jeux”, mas não em “Pelléas”.

É claro que esta sua única ópera apresenta muitos contrastes com Tristão, mas não como antagonismo. Como complemento, isto sim. Será possível negar uma arte sem primeiramente incorporá-la? É uma ópera maravilhosa em sua justeza de forças expressivas, neste incomparável equilíbrio entre elementos estéticos simbólicos, subjetivos e o vigor realista expresso pelo impacto entre estereótipos dramáticos.

Mas, ao mesmo tempo, Debussy abre uma nova via, mais estreita, por certo, que aquela de Wagner, mas muito mais penetrante. Não há confidências em seu discurso musical, nem eloquência. Não obstante, há emoção e lirismo, cadenciados pela voz sóbria e intemporal do mistério da vida e da morte. E tudo é alcançado por sutis cascatas harmônicas, por uma simplicidade silábica, sem precedentes na música, e por uma desconcertante regularidade tonal. É claro que Debussy não consegue evitar o recurso ao estilo narrativo tradicional nesta obra de longa duração. Mas mantém sua atitude revisionista, iniciada com o Fauno. A versão antológica de “Pelléas” é certamente aquela de Desormieres com a Orquestra da ópera Cômica de Paris, mas Karajan, sempre inesperado, é um digno concorrente, com a Filarmônica de Berlim. Há um luminoso toque impressionista nesta versão do maestro alemão que nem Boulez consegue igualar. Esta última gravação com a Orquestra do Cone vent Garden também é recomendável. Outra versão satisfatória é aquela de Jordan com a Monte Carlo. Menos bem sucedido é Baudo com a Orquestra de Lyon. Em seguida Debussy iria compor sobre um texto de D’Annunzio uma espécie de drama místico sobre o “Martírio de São Sebastião”. Foi um engano grosseiro. Há momentos deliciosos, mas como conjunto é uma lástima. O texto é ainda mais carregado que o de Maeterlinck. Em momentos chega a ser grotesco. Aquela perfeita simetria, aqueles traços puros de “Pelléas” não estão presentes no “Martírio”. Não há nada mais deplorável para um espírito criador do que alcançar a perfetção na primeira tentativa. No Drama Musical nada mais havia a ser feito depois de “Pelléas” e com a orquestra tudo tinha sido dito com “Ia Mer”. Assim, com apenas 40 anos, Debussy havia alcançado o cume de sua caminhada. Mas ainda havia fôlego para mais uma obra-prima orquestral, um ballet denominado “Jeux”, onde novamente toda sua imaginação criadora e agressividade inovadora viriam se exprimir. Em “Jeux”, há uma mudança contínua com os temas se deslocando em direções imprevisíveis, com fragmentos que surgem inesperadamente para serem abandonados em plena elaboração. Mas o caos é aparente, pois se cada segmento não faz sentido quando considerado isoladamente o todo é magnificamente estruturado. Tudo flui e tudo se decompõe. Completa-se, assim em “Jeux”, a liberação formal enunciada no Fauno, e levada ao paroxismo em “La Mer”. Tudo é impalpável, tudo é fugitivo. A versão de Haitink com a Concertgebow lançada recentemente no Brasil é impecável. Alternativa de primeira é a de Boulez com a New Philarmonia. Para o “Martírio”, a versão antológica é aquela de Gluytens com a ORTF. Não recomendo esta última peca, entretanto, senão para os fanáticos.

Claude Debussy – Pelléas et Mélisande – Act 2 – Scene 1

Orquestra Sinfônica de Berlim – Regente Herbert von Karajan

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http://www.youtube.com/watch?v=1qwX3PoGL_M

 

Publicado no jornal Folha de São Paulo de 29/09/1985.


Créditos de imagem: ambassadeurslettresbelges.blogspot.com

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