Em Destaques, Música

Nessa coluna, a semana passada*, foi mencionada a proposta estilística mais recente para a interpretação da música coral de Bach. Mais especificamente, foram discutidas as diversas concepções quanto às dimensões de coros e conjuntos instrumentais. Essa polêmica, que já dura décadas, foi recentemente acentuada com os argumentos de Joshua Rifkin, competente musicólogo e musicista, que acaba de gravar uma série de Cantatas e a Missa em Si Menor de Bach. Rifkin defende a redução dos coros de Bach a um único cantor por voz e aproveitamento desses mesmos quatro cantores como solistas. Seu principal argumento advém do fato de que eram apenas essas forças de que dispunha Bach em Leipzig.

Todavia, existem testemunhos do próprio Bach de que, pelo menos em ocasiões especiais, ele contava com forças significativamente maiores. Bastante conhecido é um ofício do Kantor em que caracteriza a qualidade dos cantores à sua disposição, como “dezessete adequados, vinte ainda inúteis e outros dezessete inadequados”. Por outro lado, o número de cópias deixadas por Bach para as vozes dos coros 1 e 2 da Paixão Segundo São Mateus indica que o número de cantores por voz não era superior a quatro, o que corresponde a um total de trinta e dois elementos. É claro que o fato de Bach ter usado entre trinta e quarenta vozes na apresentação da Paixão, não é indicativo de que teria adotado as mesmas dimensões para a versão final da Missa que não chegou a apresentar publicamente. Por outro lado, também é verdade que não existe evidência alguma de que Bach tivesse preferências de ordem estética por conjuntos instrumentais ou corais reduzidos ao seu infinitésimo, embora seja possível que Rifkin tenha razão quanto à apresentação corrente das Cantatas com forças reduzidas ao seu mínimo essencial. Mas tanto a Missa como as Paixões não foram concebidas para tais ocasiões e muito menos especificamente para São Tomás.

Após a elaboração dos comentários que apareceram nessa coluna na semana passada sobre a Missa em Si Menor de Bach, em que foi discretamente recomendada a recente versão de Parrott com o grupo Taverner, encontrei a recentíssima versão de Leonhardt, que se aproxima das dimensões típicas das décadas de 60 e 70 adotadas nas versões clássicas de Münchinger, Klemperer, Corboz e tantos outros. Leonhardt, entretanto, se distancia desses autores pela adoção de técnicas vocais e instrumentos da época. Leonhardt nos oferece, do ponto de vista acadêmico, a versão mais satisfatória que conheço da Missa em Si Menor de Bach. Nessa gravação atuam a excelente Petite Bande e o Collegium Musicum van de Nederlandse, com apenas dezesseis cantores, aos quais se adicionam os seis solistas.

Por outro lado, também é verdade que o mais importante é a sensação estética experimentada. A Missa em Si Menor e a Paixão Segundo São Mateus são pináculos da música ocidental, que bem merecem mais que uma gravação. Parece, pois, indispensável essa última versão da Missa, tanto quanto o é da clássica versão de Klemperer da Paixão.

Nessa última obra o mesmo dilema encontrado com a Missa é reeditado de forma ainda mais aguda. Talvez porque não haja ainda uma versão estilisticamente equivalente àquela de Leonhardt para a Missa e porque haja tantas versões atraentes quanto a expressão e simultaneamente deficientes do ponto de vista do estilo. Embora Harnoncourt nos ofereça um compromisso relativamente satisfatório, sua versão fica a tal ponto distante daquela de Klemperer, quanto a expressividade que a melhor opção para aqueles que pretendem dispor de uma única versão ainda é aquela de Münchinger, que melhor equilibra emoção e estilo. Mas, para aqueles que podem despender recursos financeiros com duas gravações, seriam recomendáveis a versão de Klemperer com o Coro e a Orquestra New Philharmonia e com essa plêiade de magníficos solistas: Pears, Fischer-Dieskau, Schwarzkopf, Ludwig, Gedda e Berry, além daquela de Harnoncourt com o Coro do King’s College e o Concentus Musicus de Viena. Münchinger se utiliza da Orquestra de Câmera de Stuttgart.

*Ver artigo: Bach e a posteridade – FSP:31/08/1986 [http://bit.ly/2dJUoZG]

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 07/09/1986.

Johann Sebastian Bach

St Matthew

Passion Part 1

Ludwig Gedda Dieskau Conducted by Otto Klemperer

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