Os críticos de Música que alcançaram notoriedade universal se dividem em duas categorias: os arrogantes e os prudentes. Os primeiros se atrevem a criticar os compositores e suas obras, os segundos se concentram nos intérpretes. Confesso que os primeiros, os arrogantes, são quase sempre muito mais interessantes que os segundos. Dentre os primeiros, estão os extremistas da empáfia, os deliciosos Bernard Shaw, H. L. Menchen, André Suarès e Ernest Newman. No extremo oposto, paradigmas da crítica inteligente e modesta, foram H. L. Schomberg e I. Kolodin.

O mais contundente de todos foi Suarès, que ousou desqualificar até a sacrossanta Nona Sinfonia de Beethoven. E é a uma dessas suas diatribes que nos ocupamos aqui. Para ele os pináculos da Música foram Bach e Wagner. Havia à época, entretanto, o reconhecimento generalizado de que a Itália era o berço e a perene dominância da Música. Suarès investe contra essa opinião atribuindo a Alemanha esse papel secundado pela França. Não se baseia em argumentos de natureza musicológica, mas apenas em uma simplória comparação de listagens de compositores acompanhadas de avaliações de seus particulares méritos, ou melhor, de seus respectivos prestígios. Assim, Suarès enfileira Shutz, Gluck, os Bach, Haendel, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Liszt, Schumann e Wagner. E de fato a Alemanha domina o cenário musical a partir de começos do século XVIII. Todavia, não somente Suarès ignora os gênios de Buxtehude, de Biber, de Schwering e Telemann, como se esquece de que tanto Schultz como Haendel se educaram na Itália, sendo a música de Haendel muito mais italiana que alemã.

Cita Suarès, além de Monteverdi, único italiano cujo valor reconhece, Frescobaldi e Rossini, como também Vivaldi e Bocherini, que considera apoucados, além de Provenzale, Carissimi e um dos Scarlatti (qual?) monotonamente iguais. Menciona um “petit rien” Pergolesi, cujo Stabat “é para as bonecas”. Ah, santa ignorância! Ignorava certamente o arrogante crítico que seu maior ídolo J. S. Bach havia publicado uma versão do Salmo 51 (Tilge Hoechter, meine Sünden), que é cópia (para não dizer plágio) nota por nota, desse mesmo Stabat Matter de Pergolesi. E que esse mesmo Bach transcrevera abundantemente obras de Vivaldi. Além do mais, ignora Suarès a grande influência que Corell e Gesualdo tiveram além da inquestionável hegemonia de Monteverdi sobre a música pós-renascentista alemã. Todavia, se a França dominou a música europeia até fins da Idade Média, a Itália assume a liderança durante o Renascimento. É verdade que o centro da atividade musical se transfere para o que é hoje Alemanha e Áustria em meados do século XVIII.

Por outro lado temos que desculpar Suarès pela sua ignorância, pois a profissionalização da musicologia, além da disponibilidade ampla de música escrita e gravada sonoramente são acontecimentos recentes, da segunda metade do século XX, posterior, portanto a André Suarès. Até então partituras da obra de Vivaldi, por exemplo, apodreciam em empoeiradas bibliotecas públicas e de conventos, acessíveis apenas a poucos rabugentos professores e pesquisadores. Hoje há várias gravações das 27 óperas, 70 obras sacras, 40 cantatas profanas e serenatas, além de uma centena de obras de câmara e de 500 concertos para vários instrumentos solistas e conjuntos. Não é uma maravilha?

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