Em Destaques, Miscelânea

 Por José Eisenberg

1. Do ponto de vista jurídico, a presidenta foi removida do cargo pelo instituto do impedimento, em virtude da tipificação de movimentações fiscais condenadas pelo TCU terem sido interpretadas como crime de responsabilidade pelo Senado Federal. Do ponto de vista político, a presidenta foi traída por seu vice e pelos seus aliados no PMDB, e foi deposta através de um golpe parlamentar dos “300 picaretas” que Lula sempre temera. Do ponto de vista sociológico, a presidenta foi substituída pelo seu vice em uma manobra jurídica do maior partido de sua base de sustentação. O impeachment, historicamente, é a narrativa da insurreição do PMDB contra a aliança com Lula desde o seu segundo mandato.

2. A disputa semântica sobre aqueles eventos acabou no momento em que seus opositores escolheram o #ForaTemer como seu mote. Não há campanha pelo retorno à legalidade, mas oposição política ao novo governo formado pelo vice.

3. O alinhamento político após o impeachment da presidenta é, paradoxalmente, mais consoante com a política enquanto exercício de convicções do que era antes desta ruptura. Uma das consequências não-intencionadas daquela crise institucional foi um delineamento mais claro de quem está à esquerda ou à direita.

4. Os desvios de conduta de Lula, do ponto de vista jurídico, são pífios, mas seus erros políticos contribuíram de maneira decisiva para o desfecho desta saga. Em particular, os erros dele na sucessão de 2010 foram gravíssimos. Sua sucessora não terminou os mandatos sucessivos que lhe foram conferidos e, independente da alocação de responsabilidades por esse infortúnio, se deu no que deu, Lula tem culpa no cartório. Quando se tornou candidata, ela era tão somente a candidata dele.

5. Os erros de Lula e do PT permitiram a reorganização do PSDB, em uma demonstração de que o brasileiro gosta de partido sim, diferente do que imaginam os deslumbrados com a dominação carismática ou tradicional. O PSDB, mesmo desorganizado nos últimos anos, ganhou com o peso da sigla. A vitória em SP é extraordinária. Os tucanos são a expressão da supremacia paulista na política organizada do Brasil contemporâneo. É por esta razão, inclusive, que se pode esperar uma reorganização potente e rápida do PT. Ele está entre as três maiores forças político-partidárias do Brasil. Boa parte dos que não gostam de tucanos vai correr pra estrelinha novamente; e o PT de SP é forte, mesmo na derrota.

6. A pureza republicana do PSOL será o seu veneno. É o grande vencedor à esquerda nestas eleições, com destaque para Rio e Belém, mas seu discurso udenista lhe custará caro, pois as alianças que podem alçar o partido a categoria de eleitoralmente competitivo incluem perigosas ameaças a este discurso higiênico. O PT é um aliado necessário. Ele acompanhará o PSOL se este conseguir se firmar como opção de poder e não apenas opção moral. Do contrário, permanecerá isolado.

7. Ainda resisto à ideia de que haja uma direita consolidada no Brasil. Jair Bolsonaro e Silas Malafaia são caricaturas, e não há público capaz de produzir maiorias que os legitime fora dos guetos político-eleitorais que hoje ocupam. Há liberais à direita, sem dúvida, de Kátia Abreu a Ana Amélia, de Alckmin a Crivella (o corte religioso não tem relevância). Este liberalismo que comprime e isola o poder de intervenção do Estado ganha espaço paulatinamente desde o governo FHC. Ele se alia a quem está no poder, desde que seja para continuar diminuindo o tamanho do Estado. Historicamente, era o PFL/DEM quem estava destinado a representar este campo político. Hoje, talvez o PSD esteja mais habilitado. A tendência, de todo modo, é galvanizar esse nicho da política em alguma sigla que possa disputar cargos eletivos em pé de igualdade com as outras três grandes siglas (PMDB, PSDB e PT).

8. No momento atual, resta uma estratégia defensiva e minimalista para a esquerda, diante da crise econômica com recessão que se desenha para a próxima década. Esta agenda deve conter três eixos: (a) recompor a agenda de políticas sociais de modo a assegurar as conquistas do governo Lula, em particular aquela que assegurou a erradicação da miséria; (b) fortalecer burocracias partidárias e a fidúcia nelas depositada, sem esperar ou investir intensamente na agenda participativa, sempre benvida, mas impotente, especialmente no momento atual. A lista fechada deve ser a única bandeira inegociável em uma reforma política. Todo o resto deve, e deveria estar, em negociação. Não é hora de marcar posição; e, (c)  planejar e organizar a política da esquerda depois de Lula, para poder voltar a fazer oposição aos “300 picaretas” sem ter medo de expurgar aliados. Nesta altura, Lula 2018 é uma oportunidade, mas não para ganhar. Lula perde, mas seus 40% dos votos num eventual segundo turno ajudarão a reorganizar a esquerda e seus atores.

9. As redes sociais são inúteis para a esquerda se ela não achar modos de utilizá-las no contexto dos usos que a população de baixa renda faz delas. Menos Facebook, mais WhatsApp. Mais debate fechado, menos comício. Menos caracteres, mais memes.

10. No momento, os grandes protagonistas da política no Brasil são Renan e Sarney. Está na mão deles um sem número de destinos individuais e partidários. A histeria de um e o silêncio do outro são duas faces de uma mesma moeda: um aviso claro e reiterado – “Não mexam comigo, senão…”.

Do FB do Autor [http://bit.ly/2eVHQy9]:03/11/2016.

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José Eisenberg. Cientista Social. Ph.D. em Political Science (City University of New York).

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