Em Conjuntura Internacional, Destaques

Março, na China, é o mês do Primeiro Ministro. Realiza-se tradicionalmente nesse mês a sessão anual da Assembleia Nacional do Povo, o Legislativo do país, e o Premiê, na sua condição de Chefe do Conselho de Estado (instância que entre outras autoridades abriga os Ministros de Estado), abre os trabalhos com um discurso de substância, que muitos gostam de comparar ao Discurso à Nação, dos Presidentes americanos. Assim foi que Li Keqiang discursou, a 5 de março de 2015, para 3.000 delegados reunidos no Grande Salão do Povo, em Pequim. Reconhecendo, como de hábito, as dificuldades do momento, na China. O crescimento do PIB, em 2014, foi o mais lento em quase um quarto de século, e os números da economia nos dois primeiros meses de 2015, publicados dois dias antes, mostravam uma contínua perda de força. “As dificuldades econômicas de 2015 poderão ser até mais formidáveis do que as de 2014” – comentou Li Keqiang. A expectativa de crescimento para o novo ano foi posta em 7,0%, mais baixo do que os 7,4% de 2014. Mas, frisou o Primeiro Ministro, não há que desesperar. O crescimento menos espetacular e mais estável do PIB é a “nova normalidade” da China.

Os chineses não foram tomados de surpresa com a divulgação dessas novas realidades. Há meses o governo vinha preparando o país para o caso. Companhias nacionais e estrangeiras já tinham começado a ajustar-se a uma economia menos vibrante, cientes de que o velho modelo de crescimento apoiado nas exportações estava estruturalmente esgotado. A preocupação, agora, era com assegurar a transição para um desenvolvimento esteado no mercado interno; no consumo domestico; e nos serviços. Para isso, era preciso melhorar o equilíbrio entre remanescentes do planejamento central e uma economia aberta ao mercado, com o objetivo de construir, no prazo médio, uma sociedade urbana e modernizada. Em coluna na Folha de S. Paulo (26.01.15), Marcos Caramuru de Paiva acentua que muitas coisas estão acontecendo na China, voltadas para tal objetivo: “A política agrícola moderniza-se; no mundo financeiro, anunciam-se novidades relevantes, como a autorização para que bancos estrangeiros tenham liberdade para operar com a moeda local; o acompanhamento do endividamento das províncias está acirrado; a tributação passa por inovações (…) A inovação será a chave do futuro. Ela terá de vir, em boa medida, do setor privado.”

A nova normalidade – conforme acentuou (20/03/15) o correspondente em Hong Kong do Nikkei de Tóquio – não se expressa apenas num crescimento mais lento. “As mudanças estruturais na economia chinesa estão acelerando uma outra nova realidade: o êxodo de dinheiro.” Com efeito, as divisas acumuladas pela China, durante décadas, estão sendo redirecionadas para o exterior. Incorporadoras, companhias de seguro e indivíduos ricos chineses estão adquirindo com voracidade imóveis e terrenos em grandes cidades dos EUA, da Europa e outros países. Exemplo de impacto foi a compra, em outubro de 2014, por US$1,95 bilhão, do Waldorf Astoria em Nova York. E imóveis não são os únicos ativos procurados. As aquisições de empresas estrangeiras por companhias chinesas quase dobraram em 2014, para mais de 70 bilhões de dólares, em relação a 2009. Há que contar ainda com o turista chinês, que está viajando e gastando como nunca.

Produto que foi muito afetado pela diminuição no ritmo de crescimento da China, mas está reagindo de maneira paradoxal, é o aço. Esse setor se beneficia de mão de obra relativamente barata, e apesar de limitações ao crédito, vem tendo suas dívidas refinanciadas pelos bancos oficiais. Em consequência, a China produz um volume de aço equivalente ao de todo o resto do mundo; quatro vezes maior do que a produção americana nos anos 1970. Com o esfriamento, em particular, do mercado imobiliário chinês, o ritmo de absorção do aço pelo mercado doméstico vem caindo de ano a ano, mas as aciarias não reduziram suas operações. E buscam exportar o excedente. O mundo está sendo inundado de aço chinês. “Da União Europeia até a Coreia e a Índia”, acentuou (17/03/15) o Wall Street Journal), “o excesso da oferta de aço produzido na China está desmantelando padrões de comércio e incitando disputas entre produtores locais.” As exportações de aço da China atingiram 9,2 milhões de toneladas, em janeiro de 2015, ou 6,3% a mais do que em janeiro de 2014. A EU importou 4,5 milhões de toneladas de aço da China, em 2014; a Índia, 2,8 milhões. O jornal inglês dá conta da movimentação desses países, além de siderúrgicas dos EUA e da Coréia do Sul, acionando de diversas maneiras os exportadores chineses.


Créditos de imagem: STR/ AFP/ Getty Images

Facebooktwittergoogle_plus