Em Conjuntura Internacional, Destaques

Barack Obama realizou, de 22 a 29 de abril de 2014, um giro de oito dias por quatro países da Ásia-Pacífico (Japão, Coréia do Sul, Malásia e Filipinas), com o claro objetivo de reanimar o que ele chama o “pivô”, a reorientação estratégica dos EUA, do Sudoeste do continente e da Ásia-Central para a Ásia-Pacífico. Como é notório, essa iniciativa começou a marcar passo em 2013, em decorrência da ausência de Obama de importantes reuniões asiáticas. No giro de agora, a dimensão militar do “pivô” esteve presente o tempo todo. Três dos quatro países visitados têm pactos de defesa com Washington, e o quarto, a Malásia, vem sendo tratado como “parceiro estratégico em perspectiva”. Não por coincidência, os quatro países selecionados têm todos litígios territoriais com a China, circunstância indiretamente evocada no discurso com que Obama encerrou seu circuito, falando em Manila para militares americanos e filipinos. Analisando essa fala, escreveu o New York Times: “Alternando raiva e tristeza, suas palavras sugeriram a distância que ele tem percorrido, desde o jovem líder que aceitouo Nobel da Paz até um discurso sobre a necessidade ocasional da guerra.” E o China Daily, em editorial, acusou os EUA de já não disfarçarem sua vontade de erigir a China em adversário.

Apesar dessas tonalidades militares, o objetivo principal do giro de Obama foi dar novo alento às negociações comerciais encapsuladas na Parceria Transpacífica. Tratarei dessa dimensão na próxima coluna. Na de hoje, vou aproveitar para dar notícia de um livro saído em 2013, de autoria de antigo Adido Militar americano em Pequim, e respeitado observador do esforço militar chinês: Larry M. Wortzel. The Dragon Extends Its Reach. (Washington, DC: Potomac Books). Wortzel vê duas linhas vermelhas na marcha da edificação militar da RPC: (1) os EUA são distinguidos como o mais capaz dos potenciais adversários da China, o que exige do Exército de Libertação Popular (a Marinha de Guerra e a Força Aérea aí incluídas) tudo fazer para alcançar um equilíbrio estratégico, sem pretensão a superioridade, com o poderio militar americano no maior número possível de setores bélicos; (2) o esforço de robustecimento militar da China acompanha a expansão da sua dependência de importações de todo o globo, na busca de assegurar a circulação tranquila desses insumos.

the dragon

Wortzel não descuida de registrar as deficiências do ELP nos diversos setores examinados, chamando a atenção em especial para a falta, ainda sensível, de pessoal apto a operar em condições de tecnologias avançadas, situação que os líderes militares chineses estão, contudo, procurando corrigir, no horizonte de 2020. No momento, segundo Wortzel, a RPC já conquistou nível avançado no espaço, ciberguerra, mísseis e força nuclear. As forças convencionais não estão capacitadas para sustentar, por tempo prolongado, operações de combate muito além das suas águas periféricas, como os Mares Amarelo e da China do Leste e do Sul, uma vez que a Marinha do ELP ainda depende da cobertura de aviões baseados no continente. O único setor em que a RPC já alcançou nível internacional é a ciberguerra, embora – sempre segundo Wortzel – as capacidades correspondentes ainda não tenham penetrado fundo nas fileiras do ELP.

O capítulo final é dedicado às implicações para os EUA dos avanços do ELP. Embora sem antecipar uma guerra sino-americana, Wortzel identifica Taiwan e a Coréia do Norte, além dos litígios territoriais nos mares citados, como potenciais pontos para a explosão de conflitos armados, em vista dos compromissos contratuais dos EUA com o Japão e as Filipinas. O autor argumenta, em essência, que a supremacia dos EUA sobre a China já não é a mesma de 20 anos atrás, e que se está tornando crescentemente inseguro para as forças americanas confrontarem as chinesas, nas águas periféricas em questão, opondo técnicas de “anti-acesso/denegação de área”, às estratégias chinesas de “contra-intervenção”.

Créditos de imagem: cn.wsj.comisape.wordpress.com

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