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A partir de meados do século XVIII, um conjunto específico de instrumentos de cordas passou a ser considerado como a coletividade ideal para se encarregar da expressão dos pensamentos mais relevantes e permanentes da inteligência musical. Antes de Haydn, ainda sob o domínio da polifonia, a trio-sonata, com duas vozes autônomas e um baixo-contínuo, dominava o cenário camerístico e ninguém desconfiaria que, com a restauração da homofonia, poucas décadas depois, seria adotado como paradigma formal o quarteto para cordas, incapaz de prescindir dos recursos da polifonia. Como explicar o fato incontestável de que o quarteto para cordas tenha-se tornado universalmente aceito como o arranjo instrumental perfeito? Por que quatro, ou mais especificamente dois violinos, uma viola e um violoncelo, e não três ou cinco? Mozart, Beethoven e tantos outros experimentaram com trios de cordas, e abandonaram essas combinações. E apesar das obras-primas do próprio Mozart e de Brahms, seus quintetos com viola dobrada e de Schubert, com um violoncelo adicional, essas derivações formais foram sempre relegadas a um segundo plano. Não há compositor dos séculos XIX e XX que não tenha dedicado especial atenção a esse conjunto específico de quatro instrumentos de cordas e raramente a trios e quintetos. O que haveria de tão especial com essa particular agregação de instrumentos para ser tomada como padrão? Por outro lado, convém observar que o quarteto Clássico não adota uma estrutura de composição estritamente em partes, e quando se vale da polifonia raramente são utilizadas quatro vozes como seria natural nos séculos XVI e XVII para um conjunto de quatro instrumentos de cordas a exemplo das Fantasias de Purcell.

Além do mais, a partir de Mozart, ou mais precisamente, da série dedicada a Haydn, o quarteto veio a adquirir crescentemente um caráter sinfônico tal o predomínio da escrita homofônica sobre a polifônica. Por outro lado, também na orquestra sinfônica e na orquestra Clássica de câmera, estão as cordas divididas em quatro grupos, exatamente os mesmos que constituem o quarteto para cordas. Haveria uma inclinação musical natural do homem para esse específico arranjo de vozes? Algum imperativo fisiológico? Estariam certos os pitagóricos ao atribuir propriedades mágicas ao grande tetraekis, o número quatro? Fica aqui a indagação. Talvez algum leitor possa me ajudar.

O Quarteto Italiano – o novíssimo, deveríamos dizer, pois desde 1922 existiu quase sempre um conjunto com esse nome, e pelo menos três deles alcançaram reconhecimento universal pela excelência – nos dá uma bonita edição completa das vinte e três obras de Mozart para esse conjunto instrumental. Como sempre, esse grupo de profissionais extremamente sério nos oferece uma interpretação polida e formalmente perfeita. Entretanto, devo confessar, prefiro a exuberância radiosa do Quarteto Alban Berg. Não falta espontaneidade na versão dos italianos ou convicção. Talvez falte ousadia. Infelizmente o Alban Berg se restringe aos últimos dez Quartetos. Há uma grande diferença de concepção entre essas obras da maturidade de Mozart e os primeiros treze Quartetos, compostos ainda em sua juventude (de 1770 a 1773).

Não teria, entretanto, a coragem de aconselhar uma opção em detrimento da outra. Em realidade proponho que o verdadeiro amante de música adquira pelo menos essas duas coleções.

É com certa insegurança que informo ao leitor que, mesmo descontando insuficiências técnicas do passado, não há versões antológicas que rivalizem com as duas modernas que acabamos de descrever, mesmo no que diz respeito a interpretações isoladas, exceto talvez por uma poética visão do KV 499 em Ré Maior pelo Budapest, recém-chegado aos EUA no final da década de 30. A versão de 1953, da série Haydn pelo Budapest, considerada antológica por alguns críticos, é, em minha opinião, inferior à do Alban Berg e do Italiano. A econômica Voz editou nos anos 60 uma versão completa com o Barchet, pouco recomendável principalmente nas séries Haydn* e Rei da Prússia**.

Também o Quarteto Búlgaro me parece insatisfatório, mas ouvi apenas alguns dos discos.

O Amadeus, sempre meio fanhoso, toca Mozart com isenção enfadonha, embora seja possível que alguns prefiram o seu jogo descompromissado. O Amadeus acaba de completar a edição dos Quartetos de Mozart para a Deutsche Grammophon e alguns discos já saíram no Brasil. Mais intenso e igualmente exato é o Tokio em alguns dos últimos quartetos. Igualmente aceitável é o Melos que já gravou a série Haydn e parte da Rei da Prússia. O Quarteto Yale, que tem o nosso Parisot como violoncelo, é um pouco desequilibrado no KV 421 e no KV 575.

*O autor refere-se à série de seis Quartetos de W. A. Mozart dedicadas a J. Haydn. São eles: em Sol Maior KV 387, em Ré Menor KV 421, em Mi Bemol Maior KV 428, em Si Bemol Maior KV 458, dito A Caça (Jagdquartett), em Lá Maior KV 464 e em Dó Maior KV 465, dito As Dissonâncias (Dissonanzenquartett). Foram compostos entre 1782 e 1785, contidos no seu Op. X.

** O autor refere-se à série de Quartetos de W. A. Mozart dedicados a Frederico Guilherme II, rei da Prússia, provenientes da viagem a Potsdam e Berlim na primavera de 1789. São eles: nº 21 em Ré Maior KV 575, nº 22 em Si Bemol Maior KV 589 e nº 23 em Fá Maior KV 590.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 1º./04/1984.

Wolfgang Amadeus Mozart

F major, K. 590, Movement 1: Allegro moderato Alban Berg String Quartet

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https://www.youtube.com/watch?v=PrgKXxWV6ZA


Imagem: Hume – “The Spirit of Gambo” for Viola da Gamba / The Garden of Harmony Youtube Channel

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