Creio haver espaço, neste blog em boa hora iniciado, para uma coluna mensal de acompanhamento das relações EUA-China. As duas maiores economias do globo, em números absolutos, e de cujo bom entendimento dependerá a paz mundial no prazo médio. O Prof. Noah Feldman, da Harvard, acaba de propor (Cool War: The Future of Global Competition. N.Y., 2013) essa nova designação para substituir a velha Cold War.  Na Cool War, a competição estratégica entre os protagonistas máximos desenvolve-se entrelaçada à grande interdependência econômica entre os mesmos. Tal como na Cold War, os dois lados buscam ampliar sua presença a todos os recantos do mundo de importância para o comércio ou o intercâmbio entre as pessoas; ou que sejam fontes de recursos com valor econômico. Mas em vez de constrangerem o comércio entre os dois campos, os novos protagonistas são grandes parceiros econômicos um do outro.

Nos últimos três anos, em movimento descrito pelo Presidente Obama como um “pivô”, ou giro abrupto, Washington deslocou seus interesses estratégicos na Ásia do Sudoeste do continente e da Ásia Central para a região da Ásia Pacífico. Além da intensificação de exercícios navais conjuntos com o Japão e a Coreia do Sul, antigos pactos militares com as Filipinas, Tailândia e Nova Zelândia foram reativados.  Negociou-se o estacionamento de fuzileiros navais na Austrália e de belonaves modernas no porto de Cingapura. Uma expressiva cooperação de defesa foi posta em marcha com o Vietnã. A justificativa para essa busca de uma superioridade absoluta no Pacífico Norte foi apresentada como reação a comportamentos arrogantemente assertivos, que a China teria começado a tomar. Especialistas do IISS, de Londres, no entanto, viram a montagem desse dispositivo estratégico como expressão de uma auto assumida posição de potência residente na Ásia, da parte dos EUA. Washington toma a si o direito de disciplinar a navegação marítima nas águas do litoral pacífico, e inclusive de monitorar os avanços navais da China. Pequim rejeita essa pretensão, e um dos seus “gestos arrogantes” mais citados foi a abordagem por patrulha naval chinesa, em março de 2009, do USNS Impeccable, que realizava “pesquisas hidrográficas” nas imediações da base de submarinos na Ilha de Hainan.

A expansão e modernização da economia chinesa estão exigindo de Pequim assegurar a boa circulação internacional dos insumos energéticos e outros, indispensáveis a esse processo. Garantir também a integridade dos cidadãos chineses que se espalham pelo mundo. Em julho de 2002, a Marinha chinesa realizou sua primeira viagem em torno do globo. E na guerra civil na Líbia, foi preciso retirar de emergência dezenas de chineses que lá trabalhavam. Nos limites de um blog, só foi possível delinear em traços rápidos o pano de fundo da competição estratégica EUA-China. Nas colunas que se seguirão exploraremos os passos do necessário entendimento entre os adversários.

Amaury Porto de Oliveira, Embaixador.

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