Em Conjuntura Internacional, Destaques

A estrondosa vitória dos EUA na Guerra do Pacífico (1941-1945) deu a esse país o controle hegemônico do oceano em causa, do qual se passou a falar como de “um lago americano”. Distante dos esquemas de Washington manteve-se sempre a China, cuja projeção sobre o Pacífico Norte reflete um outro processo histórico, milenar, o do “sistema tributário sino-cêntrico”. Sobre este último só poderei, aqui, evocar um texto do japonês Takeshi Hamashita, inserido em Network Power (Ithaca, 1997), livro editado por Peter Katzeinstein. Hamashita dá relevo à importância da Ásia Marítima na história do sistema sino-cêntrico, distinguindo o Mar do Sul da China como parte inseparável da evolução econômica da China.

Conclusão semelhante é a do americano Robert D. Kaplan (Asia’s Cauldron, N.Y.: Random House, 2014). Partindo de premissas distintas das de Hamashita, Kaplan também enquadra o Mar do Sul da China na história chinesa: “Os mapas chineses são consistentes, descrevendo limites como ‘linhas históricas’ que apresentam o coração do Mar do Sul da China como uma grande formação, chamada ‘língua de vaca’, a qual se estende por 1.200 milhas, da Ilha de Hainan até perto de Cingapura e da Malásia” (pg. 11). Kaplan sugere uma interessante analogia, comparando a posição da China em relação a esse mar à posição dos EUA diante do Mar do Caribe. Segundo ele, é possível ver a China construindo uma versão asiática da Doutrina Monroe. Reconhecem-se a presença e mesmo algumas pretensões de potências de fora, mas impõe-se o domínio chinês do Mar do Sul da China: uma área de 3.626 quilômetros quadrados para a defesa da qual a China vai edificando respeitável poder naval. Sem deixar de priorizar o comércio e os negócios com os países ribeirinhos.

Em termos geográficos, o Mar do Sul da China é tão crucial para a Ásia, quanto o é o Mediterrâneo para a Europa. Para a China, especificamente, além da promessa de grandes reservas de hidrocarbonetos, o Mar do Sul funciona como escudo natural para a região mais desenvolvida e densamente povoada do país: a região meridional. Fornece, ainda, sólido apoio para a Marinha chinesa perfurar a linha de contenção conhecida como a Primeira Cadeia de Ilhas, militarmente dominada pelos EUA. Por tudo isso, acentua Kaplan, não há nada de extraordinário em buscar a China, grande potência em termos demográficos e econômicos, estabelecer a sua lei num mar cercado por países pequenos e bem mais fracos. Esta é a lição deixada pelas grandes potências dos últimos milênios. A política caribenha dos EUA é um bom exemplo. Sem falar da insistência americana em atribuir-se o direito de monitorar águas territoriais mundo afora. A recusa peremptória da China em aceitar essas intromissões nas suas costas tem dado azo a repetidos incidentes, como agora a 20 de maio de 2015, quando a aviação chinesa interceptou um avião-espião americano sobrevoando e fotografando o aterro do Fiery Cross Reef.

Ao longo de 2014, Pequim intensificou ações destinadas a consolidar o caráter chinês do Mar do Sul. De um lado, começou a ampliar o terreno sob reivindicação, dragando areia do fundo do mar para fazer aterros em torno dos recifes e entre eles, de maneira a construir ilhas. De outro lado, deu início a um trabalho acadêmico com vistas a documentar a soberania histórica da China sob as áreas delimitadas em seus mapas. Vale, aí, citar a fundação em Arlington, Virgínia, de uma célula de reflexão (“think tank”), filiada ao Instituto Nacional de Estudos do Mar do Sul da China, com sede na Ilha de Hainan. Encarrega-se esse Instituto de difundir material e realizar seminários, como o ocorrido em abril de 2015 nos EUA, com a presença de Henry Kissinger. Na ocasião, em entrevista à imprensa, o Embaixador chinês em Washington frisou que, embora esteja a China preparada para defender com vigor seus interesses, cuidará de agir com prudência na questão do Mar do Sul. Nessa linha de ação, o Ministério da Defesa chinês deu a público, em maio de 2015, um “livro branco”, falando da edificação de “moderna força naval” para a defesa dos “direitos e interesses do país”, inclusive no Mar do Sul da China.

No que tange à ampliação territorial dos recifes, cabe assinalar que não é exclusividade chinesa. Conforme registra The Economist (06.06.15), cinco dos seis países com reivindicações no Mar do Sul da China já edificaram estruturas sobre ilhotas, em geral em cima de aterros. A China se distingue pela escala e rapidez com que está mudando a face do Arquipélago das Spratlys (Nansha para os chineses). Segundo o Secretário de Defesa americano, nos últimos dezoito meses os chineses aterraram mais de 2.000 acres. Ash Carter fez essa afirmação no recente Diálogo do Xangri-la, em Cingapura, durante o qual foram trocadas farpas entre as delegações americana e chinesa. Apesar da vivacidade da retórica, a maioria dos analistas internacionais não vê a situação degenerando em conflito. O Diálogo Econômico e Estratégico sino-americano reuniu-se em fins de junho, e Xi Jinping tem marcada visita de Estado aos EUA, no mês de setembro.


Créditos de imagem: smh.com.au

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