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Se há um traço de personalidade que distingue Mozart dos demais gigantes da música ocidental é a sua permanente alegria de viver. E essa característica melhor transparece quando uma outra sua inclinação pessoal, a sociabilidade, também é satisfeita. Mozart amou a música como ninguém e ainda mais quando a compartilhava com amigos e familiares. Era a sua maneira de confraternização. Vivia de tal maneira imerso em música que não se solidarizava senão na música. Namoriscava um dó maior. Acariciava em sol maior e só amava integralmente em si bemol maior. Banqueteava na forma sonata e só caminhava em rondó.

Um dos maiores prazeres de sua juventude era tocar piano com sua irmã, pois àquela época, a prática do piano a quatro mãos era bastante difundida no âmbito familiar. Para descansar do árduo dia de trabalho de composição, Mozart, à noite, tocava o piano em conjunto com outros instrumentos com seus amigos em extensos serões musicais. E se um dia vier a ser escrita a História dos Grandes Pianistas, deverá começar por Mozart. Tinha ele apenas seis anos quando realizou sua primeira tournée como intérprete, e cinco quando compôs seus primeiros Minuetos para seu instrumento preferido.

Não obstante, escreveu muito pouco para piano a quatro mãos ou para dois pianos. Talvez porque a demanda para essa combinação de instrumentos fosse muito reduzida, no que diz respeito a apresentações em concertos públicos. Talvez a mais bem conhecida peça que se enquadra mais ou menos nessa categoria seja o Concerto para dois pianos e orquestra KV 365 em Mi Bemol Maior, que de acordo com alguns autores, teria sido escrito com o propósito de apresentação em parceria com sua irmã Nannerl, que segundo relatos da época, era também uma excepcional pianista. E essa obra é um milagre de expressão da afetividade entre os dois irmãos.

Todavia esse particular sentimento de regozijo compartilhado só iria realmente eclodir mais tarde, nas Peças para piano a quatro mãos de 1786 e 87, principalmente as Sonatas KV 497 e 521 em Fá Maior e em Dó Maior respectivamente.

O limitado espaço imposto por um único piano aos dois parceiros os obriga a uma colaboração ainda mais íntima. E é tão mais difícil qualquer sentimento exclusivista ou mesmo introspectivo quando se é obrigado a compartilhar um mesmo espaço físico e um mesmo instrumento. E assim a única saída é a exaltação da vida e o humor sadio. Aliás, o mesmo fenômeno ocorre com a música para piano a quatro mãos de Schubert. E é também interessante notar que apenas esses dois, os mais amáveis, os menos individualistas dos compositores da era do piano, tenham tido sucesso com esse tipo de música compartilhada.

Brahms, que tudo experimentou, somente lançou mão de dois pianos para suas descomprometidas Danças Húngaras, e Beethoven, que tudo imitava de Mozart, rapidamente desistiu da fórmula, depois de sua desastrada tentativa com uma única Sonata a quatro mãos Op. 6. Schumann foi um pouco mais insistente, mas suas coletâneas de peças curtas nessa forma caíram quase que completamente no esquecimento. Nem sequer Liszt, pianista por excelência, e também Mendelssohn, compuseram para dois pianos ou piano a quatro mãos. Parece, pois, que podemos concluir que esse espaço peculiar pertence a esses dois gênios alegres, espontâneos e afetivos.

Não é, pois, de se admirar, que as mais bem-sucedidas gravações sejam provenientes de intérpretes intimamente ligados entre si. É o caso de Badura-Skoda e Jörg Demus, em Mozart, e Eschenbach e Frantz, em Schubert, por exemplo.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 27/09/1987.

Schubert

Fantasia in F Minor, D.940

Christoph Eschenbach & Justus Frantz, piano duet

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http://www.allmusic.com/album/schubert-music-for-piano-duet-vol-2-mw0001859639


Imagem: The Art Archive / Alamy Stock Photo

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