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 Foi em 1907 que Picasso, nascido em 1882, produziu o seu famoso Les Demoiselles d’Avignon, obra revolucionária, precursora do Cubismo e de praticamente todas as correntes da pintura moderna. Embora quase com a mesma idade, Stravinsky viria fazer sua espalhafatosa revolução apenas em 1913 com A Sagração da Primavera. Talvez alguém já tenha feito um paralelo entre Stravinsky e Picasso e de fato os pontos de contato entre as carreiras artísticas de ambos são muitos. Os dois são figuras proteanas, superando-se a cada momento e renascendo em novas formas. Eternamente insatisfeitos com a própria impotência de expressão, destroem-se a cada passo para poder renascer imaculados e sem preconceitos. Picasso vinha diretamente dos Clássicos espanhóis, percorrera em seus períodos azul e rosa os caminhos abertos por Degas, Manet e Toulouse-Lautrec. Também Stravisnky havia preferido as sólidas fendas tradicionais da música de seu país e ninguém poderia prever que o reacionário discípulo de Rimsky-Korsakov, e que acabara de compor obras tão convencionais como Le Rossignol e O Pássaro de Fogo. Embora Pétrouchka, de 1911, já permitisse identificar alguma inquietação. A Sagração da Primavera, entretanto, não é equivalente ao Demoiselles. Se eu tivesse que encontrar uma obra musical tão profunda e sutilmente renovadora como essa peça de Picasso eu elegeria o Fauno de Debussy, que é o grande manifesto inovador da música do século XX, embora composto em 1894.

Os elementos primitivos da música são o som (o estímulo físico elementar), o tempo e a estrutura, que geram, como instrumentos de expressão, a harmonia, o ritmo e a forma, respectivamente. Debussy, em seu Fauno, plantou os germes revolucionários desses três componentes e consolidou com Jeux a revolução formal. Stravinsky deu o passo definitivo para a renovação do ritmo com A Sagração e Schoenberg teve o mesmo papel em relação à harmonia.

A Sagração encontra seu homólogo, pois, não na Demoiselles mas, talvez, em Arlequim de 1915. Aqueles que pretendem que Stravinsky tenha sofrido qualquer influência de Picasso se enganam. Além do mais, os dois grandes artistas, apesar de estarem ambos vinculados à vida artística de Paris há muitos anos, só vieram a se encontrar em 1917.

A pintura também parte dos mesmos três elementos primeiros, o estímulo físico elementar que nesse caso é a luz, que como o som, admite variações de intensidade e de tonalidade (cor, nesse caso), o tempo que nas artes plásticas se exprime pelo movimento e estrutura com todos seus componentes, que vão desde os elementos de simetria, explícitos ou ocultos, até a perene questão da expressão da terceira dimensão física (perspectiva, nos termos clássicos).

Sob esse aspecto, novamente podemos levantar um interessante paralelo entre Picasso e Stravinsky, ambos sacrificam o elemento físico básico, som e luz, em benefício do tempo. Ritmo e movimento são os componentes constitutivos essenciais para que se convertem as atenções dos dois artistas em detrimento principalmente do colorido e da harmonia. O Impressionismo estabelecera que a luz, somente a luz, importava e na música Romântica o ritmo e a forma estavam a serviço da harmonia. Não é, pois, por acaso, que Picasso se liga, durante seu período de imitação, antes a Degas que a Renoir e antes a Toulouse-Lautrec que a Gauguin ou a Van Gogh. Da mesma forma Stravisnky se encontra espiritualmente melhor com o reducionismo de Rimsky-Korsakov do que com as elaboradas harmonizações de Mussorgsky.

Outro ponto de contato entre os dois artistas são suas recaídas clássicas. Pulcinella está para Stravinsky assim como o Arlequim Sentado de 1923, está para Picasso. E a Sinfonia dos Salmos é a Guernica de Stravinsky, se desconsiderarmos o conteúdo emocional da obra magnífica de Picasso.

Para qualquer um que esteja interessado na música do século XX, um bom começo é a obra completa gravada pelo autor e que está contida em trinta e um discos. Essas mesmas interpretações também são encontradas separadamente. Hoje, entretanto, me restringirei ao primeiro período de Stravinsky, que termina com a estreia de A Sagração. Intérpretes irrepreensíveis de seus três ballets desse período, O Pássaro de Fogo, Pétrouchka e A Sagração da Primavera, são Monteux, Boulez e o próprio Stravinsky. Esse último tendo gravado apenas a versão de 47 da Pétrouchka reduzida em suas forças, mas não menos expressiva. Dentre as versões mais recentes as de Muti são excelentes, Ansermet, Dorati e Haitink também são satisfatórios. Ozawa é recomendável. Tenho sérias restrições às interpretações de Abbado, de Mehta, e de Maazel. Karajan é aceitável n’A Sagração.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 30/03/1986.

Igor Stravinsky

Rite of Spring

Orchestre de la Suisse Romande Ernest Ansermet

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