Em Destaques, Literatura

Por Nilson Lage

A leitura do livro “A defesa do ouro negro da Amazônia Azul”, editado pela Escola de Guerra Naval, conduziu-me, entre uma série de outras associações, à discussão, muito atual, sobre o futuro da globalização, tal como foi planejada na década de 1970 e se consolidou a partir da década de 1990. 

O texto, dos capitães de fragata Luciano Carvalho Judice e Charles Pacheco Piñon, com posfácio do Dr. José Augusto Abreu de Moura, capitão-de-mar-e-guerra, contém algumas das chaves para se compreender a questão do petróleo do pré-sal e das outras riquezas minerais da Zona de Exploração Exclusiva do Brasil no Atlântico Sul. 

A globalização pode ser descrita como desdobramento político da internacionalização da economia no pós-segunda guerra mundial, marcada por algumas etapas: a conferência de Bretton Woods (1944), as reuniões anuais euro-americanas do grupo de Bilderberg (a partir de 1954) e a criação da Comissão Trilateral, incluindo o Japão (1973). 

A ideia básica era a criação de um sistema de governança mundial que facilitasse o fluxo de capitais, bens e serviços após o já então previsível desmonte da União Soviética, com a redução de barreiras legislativas, alfandegárias e cambiais – o que implica limitação do poder dos estados – e  criação de um “terceiro setor” de organizações não governamentais (ongs) voltadas para finalidades consideradas edificantes e compensatórias, principalmente em assistência social e cuidados com o meio ambiente. 

O êxito do projeto dependeria, entre outras condições, de decisões racionais e da aceitação tácita das estruturas de poder a serem criadas ou mantidas. A série de conflitos que marca as últimas duas décadas, a radicalização de posições ideológicas e afluência de valores étnicos e religiosos – do Isis ao Brexit – indicam que é grande a resistência das populações. 

Resta a racionalidade. E está é certamente posta em xeque no livro dos marinheiros, a começar pela reativação da IV Frota americana, em 2008, pouco depois da descoberta das reservas do pré-sal, com o pretexto de combater o terrorismo numa região em que ele, ao que se saiba, não é visível, e tráfico de drogas, em que o controle depende essencialmente de ações policiais, de inteligência, fiscalização portuária e vigilância costeira.  

Uma governança global aceitável – a possibilidade de todos os povos se beneficiarem da ampla troca de informações, bens e pessoas – é incompatível com a ideologização de princípios em desacordo com o bom senso. Por que protelar a definição das responsabilidades na proteção das zonas de exploração exclusivas oceânicas? Como proteger instalações enormes e vulneráveis de plataformas petrolíferas no oceano, a centenas de quilômetros da costa, se a área de exclusão para embarcações não passa de 500 metros no entorno? 

São questões parecidas com aquelas que se colocam, no momento, no Mar da China, em torno de um território com ilhas que pouco valem, em si, mas onde, sob o mar, guardam-se riquezas. As ambições – não globais, mas imperiais – focam-se nos mares; como na Antártida, no Ártico ou na Amazônia, buscam o monopólio daquilo que a humanidade ainda não desvendou ou consumiu.

Para baixar gratuitamente o livro acesse o link: https://www.egn.mar.mil.br/arquivos/ADefesadoOuroNegrodaAmazoniaAzul.pdf 

Do Facebook do Autor: 10/07/2016.

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Nilson Lage. Jornalista e professor universitário (UFRJ e UFSC). Doutor em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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