Em Análises e Reflexões, Destaques

Ninguém duvida, em nossos dias, de que a hipnose exista. Mas, por outro lado, ninguém sabe muito bem o que é. Apesar disso, vou experimentar uma definição que seria, necessariamente, provisória. Serviria, não obstante, como um indicativo dos limites do conhecimento atual sobre a questão.

“A hipnose é um estado alterado do agregado psicossomático produzido quase sempre pela repetição de um estímulo para o qual a sugestão é mais eficiente do que o usual.” A imprecisão desta definição reflete não apenas a ausência de uma teoria convincente mas até mesmo a ambi guidade dos dados disponíveis. Alguns autores afirmam que é necessário que o paciente disponha de elevada inteligência. Outros dizem exatamente o contrário. Alguns contestam a habilidade de indivíduos hipersensíveis desenvolverem bolhas na pele por sugestão externa, apesar de inúmeros relatos inquestionáveis.

E há dúvidas até hoje sobre a alteração de ondas cerebrais e supressão de dor. Uma das razões para este estado lamentável de imprecisão é que o grande estoque de informações provém de clínicos, havendo quase que nenhuma atividade de pesquisa sistemática em meios universitários.

Às vezes, temos a idéia de que ‘foram médicos bem intencionados que inventaram o mito de que somente indivíduos inteligentes são hipnotizáveis, com a finalidade desinteressada de remover resistências e atrair pacientes.

Da mesma maneira, também se difundiu a crença de que o hipnotiza do não faz nada que não faria em seuestado normal. Assim, uma donzela não tiraria a roupa se fosse de boa família e um rapaz não efetuaria atos antisociais, como um assassinato, se fosse contra seus princípios morais.

Esta convicção também reduziria os receios naturais ao entregar-se nas mãos de um médico, às vezes inteiramente desconhecido. Entretanto, essa crença não é compartilhada por muitos autores. Aliás, os mais responsáveis insistem exatamente na afirmativa contrária. A hipnose encerra riscos de várias naturezas, dentre os quais o de ficar o paciente submetido à vontade do praticante, que é capaz de induzir comportamento bastante diverso do que o costumeiro.

Deixem o Moacir Dalla em minhas mãos algumas horas que eu o faço colocar em votação a emenda Teodoro Mendes, o que demonstraria que o indivíduo hipnotizado é capaz de ser induzido a praticar atos inteiramente contrários, à sua natureza íntima.

Aliás, esta experiência serviria também para remover de maneira definitiva o mito de que, para ser  hipnotizável, é imprescindível um nível elevado de inteligência.

Também a natureza poliédrica da hipnose contribui para a imprecisão.

Vejamos algumas das manifestações externas mais frequentes do fenômeno:

1) Indivíduos em transe hipnótico podem ser induzidos a se comportar como se estivessem submetidos a estímulos externos que, em realidade, não existem. Atuam como se sentissem calor, frio, som, cheiro ou visões, pela simples sugestão do hipnotizador. Ou podem complementarmente ser induzidos a suprimir qualquer destes estímulos e ficar inteiramente insensíveis;

2) Uma das demonstrações frequentes de hipnotizadores de ribalta é a produção de uma inacreditável rigidez muscular ou o desenvol vimento de força física impossível em situações normais. Tipicamente, o jovem ou a jovem ficará com os pés apoiados em uma cadeira e a nuca, em outra enquanto o prestidigitador dança um samba em seu estômago

3)   A memória pode ser ativada com extrema eficiência, pela recupe ração de informações aparentemente esquecidas ou, alternativamente, pelo acúmulo de massas enormes de dados;

4)   E não resta dúvida hoje de que é possível fazer uma pessoa atuar inteiramente contra seus princípios. Uma freirinha pode ser induzida a tirar a roupa em público, um militar patriota pode ser levado a fornecer segredos de governo e o mais ardoroso pacifista pode ser  persuadido a abater seu melhor amigo. É possível, entretanto, que em casos específicos a persuasão não ocorra. Creio, por exemplo, que seria inconsequente uma tentativa de fazer o deputado Maluf votar pelas diretas-já.

5)  E não restam dúvidas de que a hipnose é extremamente eficiente na supressão da dor, pode estancar hemorragias e provocar bolhas idên ticas às causadas por queimaduras.

Essa vasta gama de manifestações é uma indicação da complexidade do fenômeno que se pretende explicar teoricamente. Além do mais, existem ainda alguns efeitos como a regressão na idade e outras formas de dramatização que ainda não foram inteiramente aceitas como fenômenos hipnóticos e que complicam excessivamente o quadro geral. Talvez uma teoria satisfatória da hipnose só será realizável quando experiências metodicamente controladas vierem a ser executadas por cientistas treinados. Enquanto a fonte principal de informação forem os clínicos, muito pouco poderá ser feito.

Créditos de imagem: scratch.mit.edu

*Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo em 15/09/1984

Facebooktwittergoogle_plus
Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)