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Até quase os seus 50 anos, Brahms foi o mais infeliz de todos os infelizes gênios da música. Todos os postos como maestro, ou dirigente de orquestras ou coros que pleiteou ou apenas ambicionou, lhe foram negados ou o decepcionaram. Suas primeiras composições foram rejeitadas pelo público e quase sempre também pela crítica. Tanto Liszt quanto Wagner, figuras proeminentes à época, a ele se opunham. Apenas Schumann o elogiara antes de enlouquecer. Seu revolucionário primeiro concerto para piano foi vilipendiado pela crítica. Seu genial concerto para violino foi criticado até por Joachim, amigo dileto, a quem havia sido esta obra dedicada. Sua dedicação aos barrocos, Bach, Haendel, Schultz, Isaac, Gabrieli e outros, era ridicularizada pelo público e críticos. Era perseguido pelos caudilhos de orquestras e academias, exceto por von Büllow.

Apenas sua música de câmera recebeu uma aceitação inicial adequada. Seu modelo foi Beethoven, como o seria posteriormente também para as sinfonias. Dentre as primeiras obras de câmera estão os Sextetos op 18 e op 36, para cordas. Sextetos para cordas não haviam sido escritos nem por Beethoven nem por Mozart nem por Schubert, que preferiram se dedicar desde o começo de suas vidas aos quartetos e, mais tarde, com a exceção de Beethoven, compuseram quintetos. E talvez Brahms tivesse razão, seus três quartetos escritos mais tarde nunca chegaram a competir com aqueles 16 de Beethoven, ou mesmo com os últimos de Schubert, ou com os de Mozart e com os 60 e tantos de Haydn. Se usarmos como indicação do apreço o número de gravações, nem mesmo os seus tardios belíssimos quintetos para cordas alcançaram o sucesso dos 4 quintetos de Mozart ou do maravilhoso solitário quinteto op 163 de Schubert, que muitos consideram a mais perfeita obra de câmera do classicismo e romantismo, obviamente sob muita contestação.

brahms

A primeira obra de câmera que Brahms compôs foi um trio para piano e cordas, violino e violoncelo, forma tradicional estabelecida por Haydn e Mozart no século anterior. Em seguida preferiu quartetos (2), quintetos (1), peças de modesta repercussão até encontrar uma combinação única, sem precedentes e sem qualquer exemplo posterior: um trio para piano, violino e trompa, em que o compositor expressa sua dor pela morte da mãe. Brahms nunca se casou. Seu maior amor foi por uma mulher 14 anos mais velha, Clara, esposa de Schumann. Aliás, sua mãe também era 14 anos mais velha que seu pai. Um psicanalista de botequim suspeitaria de uma “projeção”. O que importa, entretanto, é que este trio é uma obra prima e que seu “adagio mesto” provoca lágrimas até em crocodilos.

Mais tarde em sua vida Brahms descobre a clarineta e se encanta com este instrumento como acontecera antes com Mozart, Beethoven e Schubert. Mas foi mais longe que seus antecessores. Seu quinteto para quarteto de cordas e clarineta é outra obra prima insuperável em todo o repertório de música de câmera. As duas sonatas para este mesmo instrumento, acompanhado de piano, são também excelsas. Escreveu também um trio para clarineta substituindo o violoncelo, que, não obstante, não alcançou o mesmo sucesso que os demais.

Brahms, apesar de todas suas experiências, difícil e raramente se afasta do instrumento que faz parte de sua respiração, o piano. Suas sonatas para piano e violino (3) e para piano e violoncelo (2), estão entre as mais belas páginas de seus respectivos repertórios. Todavia, tanto quanto seus trios de piano se igualam, não superam seus competitórios congêneres, de Beethoven, Mozart e Schubert. Então por que é Brahms por vezes considerado o compositor de Música de Câmera por excelência. Talvez seja porque tanto durante o classicismo quanto durante o romantismo ninguém tenha inovado tanto quanto ele. E sua característica principal é de origem ideológica, pois, contrariamente a Beethoven, sempre preferiu um convívio saudável, uma cooperação entre os instrumentos, ou melhor, entre as partes, as vozes, ao conflito, à competição. Seus concertos foram chamados “sinfonias concertantes” por simplistas de então e de agora. Essa conciliação entre instrumentos é o apanágio de sua música de câmera.

Johannes Brahms String Sextet Op.18 No.1 (1/5)

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https://www.youtube.com/watch?v=4jksb4v-ilg

Créditos de imagem: panoramio.com

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