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Quaisquer que sejam os músicos, musicólogos e talvez até alguns críticos musicais serão capazes de, pela simples audição ou leitura de um texto musical de Beethoven, identificar com alguma precisão a década em que foi essa obra concebida, mesmo que não a conhecessem previamente. É óbvio que essa percepção depende essencialmente da evolução que é característica da obra de Beethoven. De mudanças não somente de aspecto formal, mas também da crescente densidade psicológica que caracteriza a obra do compositor alemão. Em certa medida, essa qualidade também é perceptível nas obras de Haydn e Mozart, com relativa facilidade. Embora, por outro lado, identificar a época de composição de uma peça de Bach ou Haendel já envolva um nível de competência musicológica muito mais acentuado.

Entretanto, se nos situarmos nesse período de transição entre o apogeu da polifonia que culmina com Bach e Haendel e o Romantismo, onde vicejou a arte de Haydn e de Mozart, Boccherini é uma inexplicável exceção. Ninguém é capaz de dizer se os seus mais conhecidos Concertos para violoncelo foram escritos em 1760 ou 1790. O mesmo acontece com sua extensa música de câmera.

Estaria essa uniformidade, essa constância formal e espiritual, indicando a ausência de inquietação, de insatisfação, talvez até de inconformismo? Outras ainda se espantam com a aparente extensão da obra camerística de Boccherini. E concluem que tal nível de produção não é compatível com a qualidade. Aliás, essa mesma acusação é também dirigida a Vivaldi. Mas Boccherini, entre Trios, Quartetos, Quintetos e Sextetos compôs não muito mais que trezentas obras camerísticas ao todo (além de cerca de trinta Concertos e uma única Ópera).

Ora, nessa mesma categoria, Haydn ultrapassa Boccherini em número de obras. Além do mais, no total de obras, Haydn ultrapassa o próprio Vivaldi, e contra Haydn jamais vi essa crítica ser levantada. Sammartini, com quase duas mil e oitocentas obras, seria o mais prolixo compositor de todos os tempos e teria que escrever uma obra completa por semana durante cinquenta anos, o que seria, para dizer o menos, cansativo para o autor.

Parece, portanto, improcedente, a acusação de verborragia que tradicionalmente se faz contra Boccherini e os italianos em geral. Creio que, em número de notas, a obra de Boccherini seja menos extensa que a de Beethoven, por todos considerado bastante sóbrio. Possivelmente o que imprime aparência de prolixidade à obra de Boccherini é a constância das formações tradicionais. Boccherini talvez não seja um Mozart italiano, mas sua música instrumental é bastante atraente e não é mais superficial do que muito do que foi composto por seus contemporâneos.

É claro que os acentos psicológicos contidos nos últimos Quintetos de Mozart ou as inovações harmônicas e estruturais dos Quartetos dedicados a Haydn* estão muito distantes das obras análogas de Boccherini. Mas também não é verdade que a sua seja uma música superficial que sirva meramente para emoldurar uma noitada mundana enquanto mastigamos pastéis e bebericamos champanha. Grande prazer estético pode ser usufruído de uma audição autêntica de sua obra de câmera. Haverá até mesmo alguns momentos de exaltação.

E se o leitor não se convenceu, que vá até a loja mais próxima de discos e adquira essa pequena jóia, recentemente lançada no Brasil, que é a gravação de um conjunto de Quintetos para cordas e guitarra, com Pepe Romero e o Conjunto de Câmera da Academia Saint Martin-in-the-Fields. E que o leitor tome cuidado para não sair dançando por aí, pois esse disco contém o famoso Quinteto Fundango que inclui castanholas. Não me aventuro a escutar esse disco senão sozinho e de portas trancadas. Uma alternativa radiosa é oferecida por Yepes e o Melos.

A melhor gravação de Concertos para violoncelo de Boccherini é aquela de Bylsma com o Concerto Amsterdã sob a direção de Schröder. Mas, as gravações de Lodéon, são mais que adequadas. Gendron, Du Pré, Rostropovitch e Fournier gravaram com competência um ou outro concerto de Boccherini.

Antes de escolher um disco de música de câmera de Boccherini é preciso entender que esse autor deixava por conta do intérprete muito do colorido e da nuance rítmica. O sucesso de Pepe Romero e seus acompanhantes nos dois discos que gravaram se deve ao ímpeto e ao fulgor espontâneo de seus intérpretes. O Sestetto Chigiano alcança o mesmo nível de interesse pela exuberante sensualidade de seu estilo peninsular. Todavia, o indiscutível sucesso de Kuijken e seus notáveis acompanhantes nos Seis Quintetos Op. 29 é atingido pela transparência e pela ênfase no estilo concertante.

Outros intérpretes satisfatórios da música de câmera de Boccherini são o Quarteto Carmirelli, o Quarteto Esterházy, o Quinteto Boccherini. Tanto o Quarteto Italiano quanto o Quinteto Italiano, duas formações inteiramente distintas, oferecem interpretações de Boccherini apenas sofríveis. Günther Kehr e seu grupo, Francis e o Allegri, Lardé e o Via Nova nos oferecem interpretações razoáveis. Ephrikian e Cattini são os regentes mais atentos para as sinfonias de Boccherini.

*Ver N. do E., p. 305

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 02/03/1986.

Luigi Bocherini

Quintet for Guitar & Strings No. 4 in D Major

Romero Pepe – Academy of St. Martin in the Field Chamber

Ensemble

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Rogério Cerqueira Leite
Membro da Sociedade Americana de Musicologia