Em Análises e Reflexões, Destaques

Não consegui esconder a minha satisfação quando, no início de 1963, fui convidado para conhecer o legendário “Laboratório do prof. Strong” na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland, nos EUA. Apesar da idade avançada, lá estava o grande mestre da física experimental, debruçado sobre uma cápsula que incluía uma infinidade de geniais detectores. Seria lançado em balão e iria medir o aumento do teor de diversos gases na atmosfera. Foi a primeira vez que eu ouvi falar em “efeito estufa atmosférico”. A suspeita era de que a queima de combustíveis fósseis e de biomassa estaria libertando gases, tais como dióxido de carbono, metano etc., que se acumulavam na atmosfera.

Esses gases absorvem radiação infravermelha (longos comprimentos de ondas) e são transparentes à luz visível (comprimentos de ondas mais curtos). A radiação do Sol, graças a esses gases, atravessa a atmosfera e é absorvida pela superfície da Terra. Essa energia é remetida na forma de radiação infravermelha, mas não pode atravessar a atmosfera livremente, sendo parcialmente devolvida para a superfície da Terra. Essa “captura” de energia eletromagnética (luz e radiação) produziria, então, aumento da temperatura da superfície, que, por sua vez, causaria o degelo das calotas polares, incêndios, inundações de faixas litorâneas e assim por diante.
Mas em primeiro lugar seria necessário provar que estava realmente havendo na atmosfera um aumento significativo da densidade de gases emitidos com a queima de material orgânico. Em 1962 já se faziam essas medidas sistematicamente havia cerca de seis anos. Entretanto as variações sazonais dessas densidades, devido a outras causas, não permitiam tirar conclusões definitivas. Quinze anos depois pudemos concluir com absoluta certeza que havia ocorrido um expressivo aumento da densidade de gases, principalmente dióxido de carbono, na atmosfera. As medidas eram inelutáveis. Resoluções deveriam então ser adotadas para evitar a catástrofe. Esta mesma Folha se ocupou da divulgação do fenômeno. Mas nada foi feito. Fomos chamados de alarmistas. Países e iniciativas civis montaram grupos de combate aos “alarmistas do efeito estufa”.

Em primeiro lugar, argumentavam, não havia prova de que o aumento de gases na atmosfera se devesse à queima de combustíveis fósseis e madeira. Besteiras monumentais continuaram a ser repetidas. A floresta amazônica, o “pulmão do mundo”, absorveria esse dióxido de carbono, ou as algas dos oceanos, ou os corais, na forma de carbonatos. E indicavam algumas discrepâncias entre a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera e aquela calculada da emissão com a queima de substância orgânica. E o principal problema era a dificuldade de medida da variação da temperatura média da superfície da Terra, extremamente pequena em comparação com variações sazonais e correntes de diversas origens.

A cada argumento removido, um outro surgia. A resistência era de natureza psicológica, política e econômica. Admitida a inexorabilidade do efeito estufa, governos teriam que escolher entre duas estratégias, igualmente desagradáveis. Uma delas seria se preparar para o desastre ecológico. Com inundações de cidades litorâneas, países inteiros, como a Holanda, teriam de ser eventualmente evacuados. Incêndios imprevisíveis de florestas e cidades liberariam mais dióxido de carbono e acelerariam o aumento da temperatura, com nuvens de cinzas imprevisíveis. Mudanças climáticas da magnitude do fenômeno “El Niño” ocorreriam.

A outra opção seria o abandono de qualquer forma de combustível fóssil, que hoje responde por mais de 90% da energia comercializada no globo. E não há alternativa ao combustível fóssil que seja ao mesmo tempo economicamente interessante e abundante. Além do mais, a transição exigiria, qualquer que fosse a escolha, investimentos absurdos. É bom lembrar que até a energia nuclear, já descartada nos EUA, está, até na Europa, sendo abandonada. Só mesmo o Brasil está retomando o programa. Talvez seja porque é o único país do mundo que ainda tem reservas hídricas abundantes. Mas talvez os estrategistas brasileiros queiram resguardar essa energia renovável para o futuro.

Frente a essas duas opções igualmente desconfortáveis, governantes, políticos e formadores de opinião preferem desmoralizar o fenômeno do efeito estufa. Contratam equipes de cientistas de aluguel para encontrar argumentos que o desacreditem. Contam, além do mais, com a inclinação popular natural para escamotear perspectivas psicologicamente insuportáveis. A ameaça é tão formidável e o desfecho inexorável que a solução psicológica ordinária é a negação. O público dá assim as mãos a governantes e lideranças sociais para esquecer a realidade ameaçadora.

Mais recentemente tomou alento essa corrente antiefeito estufa com a divulgação de uma observação feita por meio de satélites, em que um trecho da troposfera (camada mais baixa da atmosfera) mostrava, contrariamente às expectativas, uma redução da temperatura. Mostrou-se, entretanto, (“Science”, 13 agosto de 1998, pág. 661) que essa aparente redução da temperatura era devido a um erro sistemático de medida. Todos os dados hoje são consistentes com um aumento, pequeno, porém inexorável, de temperatura. A munição dos que querem encerrar na arca do esquecimento o efeito estufa acabou. A humanidade terá de enfrentá-lo de frente, queira ou não queira. E quanto mais cedo, melhor.

*Artigo publicado no jornal FSP de 01/11/1998.

Créditos de imagem: professoravaleriaeduc.blogspot.com

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Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

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