Em Destaques, Escrita'10

 “Nos gramados que rodeiam os matadouros primitivos, os  urubus disputam vorazmente as vísceras de bois e vacas. Essa situação poderia servir de metáfora a muitos acontecimentos humanos.”                                (Rodrigo Naves, “A calma dos dias”).

“De gado e de homens” (Ana Paula Maia, Editora Record, 2013) é um relato ficcional cru, naturalista, que tem por base o rústico trabalho das pessoas ocupadas no abate do gado em matadouro do interior brasileiro.

‘Edgar Wilson’ é o protagonista da trama. Na faina diária, ele é o atordoador, escalado para desacordar os animais que serão abatidos. Ele é o factotum do matadouro e, junto com seus companheiros de sacrifícios, vive uma rotina de muito trabalho, que somente é alterada quando algo estranho acontece: o gado passa a se comportar de forma inusual, suicidando-se! Ao mesmo tempo, o meio ambiente parece contaminado pelo sangue dos abates e uma horda de miseráveis disputa com os abutres as carcaças de bois mortos.

A autora elabora o tema em quatro dimensões. Na primeira, o foco é a relação dos humanos com a natureza. Os homens são os grandes predadores, aqueles que vivem das mortes das demais espécies e que neste fazer dilapida todo o planeta, sujando o ar, poluindo as águas, queimando a Terra.

Na segunda dimensão, o ‘homem é o lobo do homem’: a violência do abate de animais contamina todo o padrão de sociabilidade, tanto nas relações de trabalho quanto nas formas de relacionamento com as comunidades vicinais.

A terceira dimensão tangencia o tema da articulação do atraso com o moderno, da funcionalidade do trabalho primitivo, duro e precário, para o restante da cadeia produtiva. No circuito da indústria da carne, o ponto de partida é o abate impiedoso e sangrento, que nas etapas posteriores nos levará aos ambientes cleans de boutiques de carnes e aos sofisticados restaurantes de alta-cozinha.

A quarta dimensão nos remete à discussão do papel civilizatório do trabalho. Aqui, o que se constata é o inverso: degradado, bárbaro, animalesco, o trabalho no matadouro devolve os seres humanos para os primórdios da História, ao estado de natureza, ao reino da escassez e da luta pela mera subsistência.

O Brasil insere-se no circuito globalizado da produção e exportação de proteína animal. As grandes empresas setoriais formam o núcleo de um negócio que mobiliza – entre outros parceiros – recursos financeiros  estatais, o sistema bursátil internacional e os big players do comércio mundial. A literatura realista de Ana Paula Maia nos possibilita examinar este sofisticado empreendimento a partir de uma outra perspectiva.

Créditos de imagem: gestordoocio.blogspot.com –

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William Sodré
Estudou Ciências Sociais