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De certa maneira, apenas agora está sendo descoberta a imensa riqueza musical que representa a ópera de Haendel. Ouso mesmo afirmar que não passarão muitos anos para que finalmente se estabeleça a tríplice hegemonia representada por Monteverdi, Haendel e Mozart no domínio da ópera pré-Romântica. Em realidade apenas recentemente vem sendo desvendada a complexa estratégia de Haendel na elaboração do drama. Acredito, além do mais, que foi justamente o imenso sucesso de seus oratórios que eclipsou suas óperas.

Um observador atento por certo, já terá notado que a composição das óperas de Haendel se acumula entre 1705, ano em que compôs Almira, sua primeira obra nesse gênero, e 1733, data da intervenção do bispo de Londres na atividade teatral da cidade. Enquanto, a menos de algumas tentativas juvenis, os oratórios de Haendel foram compostos a partir dessa última data, com Esther, Deborah e Athalia e até o fim de sua carreira, com A Escolha de Hércules e Jephtha, de 1751 a 1752, respectivamente (desprezando seu The Triumph of Time and Truth de 1758 que não passa de rearranjo de obras anteriores). São assim quarenta e três Óperas escritas em um período de vinte e oito anos seguido de outro, com vinte e três Oratórios em dezenove anos.

Embora haja consciência plena de que a mudança de objetivos do drama musical, da ópera para o oratório em que conflitos de interesses individuais são substituídos por conflitos morais e religiosos, decorrem de injunções puramente circunstanciais, atuamos como se a produção operística de Haendel constituísse uma fase preparatória para o advento do oratório inglês.

É claro que muito do que Haendel inventara para a ópera serviu para o oratório. Todavia, sob muitos aspectos, as exigências canônicas da prática religiosa na Inglaterra exigiram alguns retrocessos em relação aos avanços já ocorridos com a ópera. É claro que não teria sentido uma comparação entre a importância relativa das contribuições de Haendel nos dois campos. Mas não restam dúvidas de que por razões incompreensíveis o público tem dado muito maior atenção ao oratório do que à ópera de Haendel. Basta dizer que há algum tempo se dispõe de uma escolha relativamente ampla dos principais oratórios estando todos eles regularmente em catálogo.

Enquanto isso, menos que um quarto das óperas foram gravadas, e nem sempre de maneira satisfatória. Mas bastariam duas gravações recentes, lançadas já em compact discs, para convencer o leitor de que Haendel é o maior compositor de óperas de sua época, e aqui incluo, Rameau, Vivaldi e Gluck, e o igual de Monteverdi, Mozart e Wagner, nesse gênero. A primeira é aquela gravação de Tamerlano que adiciona a densidade dramática de um Verdi à concisão temática de um Monteverdi e à objetividade expressiva de um Mozart. Uma obra-prima de operismo em que a tensão dramática cresce a cada compasso, a cada ária, a cada ato. E ninguém melhor que John Eliot Gardiner para aproveitar o potencial dramático da obra. Os solistas são excelentes e os Solistas Barrocos Ingleses insuperáveis.

A outra ópera de igual qualidade, mas de estrutura tão diversa é Alessandro onde a escolha da equipe já revela uma diferença de concepção. O texto mais sereno, mais reflexivo contrasta com o drama, o suspense mesmo, de Tamerlano. E ninguém mais apto para realçar a elegância e a premeditada sonoridade dessa música excelsa do que Kuijken e sua Petite Bande. O leitor acostumado aos grandes coros dos oratórios de Haendel estranhará, talvez, a ausência dessas forças nas suas óperas (apenas algumas exceções). Mas a infinita imaginação de Haendel no uso de instrumentos que ilustram e esclarecem o drama supre essa aparente deficiência. Pois bem, prepare-se, pois a era das óperas de Haendel está para ser inaugurada. E o deslumbramento vai ser magnífico.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 27/12/1987.

 

Georg Friedrich Haendel

Alessandro (HWV21)

La petite bande
Sigiswald kuijken

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