Em Análises e Reflexões, Destaques

Por Zygmunt Bauman

Professor Bauman, diante da corrente de ataques desses dias, a Europa se vê fazendo as contas com um abismo de medo e de insegurança. Que respostas podem preenchê-lo?

As raízes da insegurança são muito profundas. Elas afundam no nosso modo de vida, são marcadas pelo enfraquecimento dos laços interpessoais, pelo desmoronamento das comunidades, pela substituição da solidariedade humana pela concorrência sem limites, pela tendência de confiar nas mãos dos indivíduos a resolução de problemas de relevância mais ampla, social. O medo gerado por essa situação de insegurança, em um mundo sujeito aos caprichos de poderes econômicos desregulados e sem controles políticos, aumenta, se difunde para todos os aspectos das nossas vidas. E esse medo busca um objetivo para se concentrar. Um objetivo concreto, visível e ao alcance das mãos.

Um objetivo que muitos identificam no fluxo de refugiados e migrantes.

Muitos deles vêm de uma situação em que estavam orgulhosos com a sua posição na sociedade, com o seu trabalho, com a sua educação. Porém, agora, são refugiados, perderam tudo. No momento da sua chegada, entram em contato com a parte mais precária das nossas sociedades, que vê neles a realização dos seus pesadelos mais profundos.

Diante desse desafio, multiplicam-se os chamados, por parte de algumas forças políticas, à construção de novos muros. Trata-se de uma resposta sensata?

Eu acho que se devem estudar, memorizar e aplicar as análises que o Papa Francisco, no seu discurso de agradecimento pelo Prêmio Carlos Magno, dedicou aos perigos mortais do “aparecimento de novos muros na Europa”. Muitos erguidos – paradoxalmente e de má fé – com a intenção e a esperança de se proteger da agitação de um mundo repleto de riscos, armadilhas e ameaças. O pontífice observa, com profunda preocupação, que, se os pais fundadores da Europa, “mensageiros de paz e profetas do futuro”, nos inspiraram a “criar pontes e derrubar muros”, a família de nações que eles promoveram parece ultimamente “cada vez menos à vontade na casa comum. O desejo novo e exaltante de criar unidade parece desaparecer; nós, herdeiros desse sonho, somos tentados a nos deter apenas nos nossos interesses egoístas e a criar barreiras”.

Nos seus estudos, o senhor indicou como valores fundadores das nossas sociedades a liberdade e a segurança: depois de uma época em que, para fazer crescer a primeira, renunciamos progressivamente à segunda, agora, o pêndulo está invertendo o seu curso. Que reflexos políticos decorrem daí?

Diante de nós, temos desafios de uma complexidade que parece insuportável. E, assim, aumenta o desejo de reduzir essa complexidade com medidas simples, instantâneas. Isso faz crescer o fascínio de “homens fortes”, que prometem – de modo irresponsável, enganoso, bombástico – encontrar aquelas medidas, resolver a complexidade. “Deixem comigo, confiem em mim”, dizem, “e eu vou resolver as coisas”. Em troca, pedem uma obediência incondicional.

Parece aquilo que está sendo proposto pelo candidato à presidência dos Estados Unidos Donald Trump, cujas posições sobre segurança e imigração foram recentemente indicadas pelo presidente húngaro Viktor Orban como modelos para a Europa…

O que estamos assistindo é uma tendência preocupante: reivindicações de tipo social, como a integração e a acolhida, são indicadas como problemas a serem confiados aos órgãos de polícia e de segurança. Isso significa que o estado de saúde do espírito fundador da União Europeia não está com boa saúde, porque a característica decisiva da inspiração na base da União Europeia era a visão de uma Europa em que as medidas militares e de segurança se tornariam – gradual mas constantemente – supérfluas.

 

O Islã é indicado por algumas forças políticas – por exemplo, a alemã Pegida – como uma fé intrinsecamente violenta, incompatível com os valores ocidentais. O que o senhor pensa a respeito?

Absolutamente é preciso evitar o erro, perigoso, de tirar conclusões de longo prazo a partir das fixações de alguns. É claro, como disse o grandíssimo sociólogo alemão Ulrich Beck, no fundo da nossa atual confusão, está o fato de que já estamos vivendo uma situação “cosmopolita” – que nos verá destinados a coabitar de modo permanente com culturas, modos de vida e fés diferentes – sem ter desenvolvido completamente as capacidades de compreender as suas lógicas e os seus requisitos: ou seja, sem ter uma “consciência cosmopolita”. E é verdade que preencher a lacuna entre a realidade em que vivemos e a nossa capacidade de compreendê-la não é um objetivo que se alcança rapidamente. O choque está apenas começando.

Então, estamos destinados a viver em sociedades nas quais o sentimento dominante será o do medo?

Trata-se de uma perspectiva sombria e perturbadora, mas cuidado: o destino de sociedades dominadas pelo medo, de fato, não está predeterminado, nem é inevitável. As promessas dos demagogos pegam, mas também têm, por sorte, uma vida curta. Uma vez que novos muros sejam erguidos e mais forças armadas sejam postas em campo nos aeroportos e nos espaços públicos; uma vez que àqueles que pedem asilo de guerras e destruições essa medida seja rejeitada, e que mais migrantes sejam repatriados, ficará evidente que tudo isso é irrelevante para resolver as causas reais da incerteza. Os demônios que nos perseguem – o medo de perder o nosso lugar na sociedade, a fragilidade dos marcos que alcançamos – não vão evaporar nem desaparecer. Naquele ponto, poderemos acordar e desenvolver anticorpos contra as sereias de falastrões e populistas que tentam ganhar capital político com o medo, desviando-nos do caminho. O temor é que, antes que esses anticorpos sejam desenvolvidos, muitos verão suas próprias vidas sendo desperdiçadas.

O senhor defendeu que as possibilidades de hospitalidade não são ilimitadas, mas também não o é a capacidade humana de suportar o sofrimento e a rejeição. Diálogo, integração e empatia, porém, requerem tempos longos…

Vou lhe responder citando o Papa Francisco mais uma vez: “Sonho com uma Europa em que ser migrante não é crime, que promove e protege os direitos de todos, sem esquecer os deveres para com todos. O que te aconteceu, Europa, principal lugar dos direitos humanos, democracia, liberdade, terra natal de homens e mulheres que arriscaram e perderam a própria vida pela dignidade dos próprios irmãos?”. Essas perguntas são dirigidas a todos nós; a nós que, como seres humanos, somos moldados pela história que ajudamos a moldar, conscientemente ou não. Cabe a nós encontrar respostas a essas perguntas e a expressá-las em atos e palavras. O maior obstáculo para encontrar essas respostas é a nossa lentidão para procurá-las.

Nota: A reportagem é de Davide Casati, publicada no jornal Corriere della Sera (25/07/2016). Tradução: Moisés Sbardelotto

IHU Online [http://www.ihu.unisinos.br/]: 29/07/2016.

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Zygmunt Bauman. Sociólogo.

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