Em Destaques, Vida Nacional

“A gente estava só apanhando. Tivemos de reagir”.

(de um auxiliar  da presidente Dilma Rousseff, segundo Kennedy Alencar).

O FATO – Dilma contra-atacou. Falando diretamente aos trabalhadores, via TV, disse que o seu governo está orientado para a defesa dos interesses da classe. Anunciou correções na tabela do imposto de renda e no valor da Bolsa-Família e reiterou o compromisso de manter a política de reajuste real do salário mínimo. Com esta retórica, a Presidente busca recompor-se com o reduto  do petismo: os pobres e os assalariados; e também posicionar-se contra o discurso oposicionista, a favor de medidas ortodoxas de ajuste macroeconômico que – se adotadas – feririam os interesses dos pobres e dos assalariados.

O discurso deste 1º. de Maio foi feito após a divulgação de pesquisas de opinião eleitoral em abril, todas elas a indicando queda tanto do prestígio do governo Dilma quanto das intenções de voto atribuídas para a reeleição da Presidente. Além do discurso agressivo dos outros presidenciáveis e dos negativos indicadores eleitorais, outros dois fatores contribuíram para emular a Presidente: (1º.) as ameaças de ‘racha’ na base de apoio parlamentar do governo; e, (2º.) a possibilidade da Renan Calheiros, – atendendo à decisão do STF e também às pressões da oposição – criar uma CPI no Senado e uma CPMI no Congresso Nacional sobre a Petrobrás.

DUAS ANÁLISES – para o filósofo Renato Janine Ribeiro, “tudo mudou esta semana, na campanha presidencial. Tínhamos quatro pretendentes ao Planalto, agora são dois. O quadro pode até se alterar de novo, mais tarde, mas Dilma Rousseff afastou Lula [com as ações políticas que adotou na semana que passou] e Aécio Neves passou bem à frente de Eduardo Campos [na polêmica pesquisa Sensus, que foi divulgada no sábado, dia 3]. A disputa se polarizou, […com] um segundo turno no horizonte e, embora a mesma pesquisa dê vitória nele a Dilma, sua tendência de queda poderia continuar”. (Valor Econômico, 5/5/2014).

Na interpretação do jornalista Kennedy Alencar, Dilma Rousseff – na fala na TV na quarta-feira – “faz uma jogada política ousada”: ela “antecipou um pacote de bondades com o objetivo de acuar a oposição e tentar recuperar popularidade”. Porém, “a jogada de Dilma deverá ter um custo político perante o mercado financeiro e os empresários. Vai minar o discurso de que ela faria um ajuste econômico em 2015, pois antecipou medidas que resultarão em aumento de despesa e queda de arrecadação”. (Blog de Kennedy Alencar, 30/4/14).

  • QUATRO POSICIONAMENTOS: Confirmando a análise de Kennedy Alencar, os porta-vozes do mercado financeiro e da oposição política, midiática e sindical reagiram, de imediato:

    O ‘Financial Times’, em nome dos financistas, concentrou a crítica no reajuste do valor da Bolsa Família: foi “um ‘passo populista’ antes das eleições presidenciais” e é “a ação ‘mais agressiva de contra-ataque da presidente contra a oposição’. O diário britânico considera que “a medida reforça o programa de transferência de renda para os mais pobres que foi a marca do período de quase 12 anos de governos do Partido dos Trabalhadores”. (‘OESP’, 1/5/14);

  • Aécio Neves e Eduardo Campos (presentes no 1º. de Maio oposicionista organizado pelos sindicalistas da Força Sindical) “criticaram o discurso da presidente, pregaram a manutenção das conquistas trabalhistas – sem a flexibilização das leis” e reclamaram do “uso de espaço institucional para falar de temas não relacionadas com o Dia do Trabalho […e] para atacar a oposição”. (iG, 1/5/14);
  • Em editorial (“Populismo corrosivo”), ‘O Estado de S. Paulo’ diz: “Cada vez mais a presidente Dilma Rousseff parece afastar-se das limitações reais e incontornáveis da administração pública, para se concentrar estritamente nos objetivos eleitorais. […]. Sua reação – aumentar os gastos para mobilizar apoio popular – pode ter sentido em prazo muito curto como manobra eleitoral. Mas a insistência nesse tipo de política, já mantida há muito tempo, produz, entre outras consequências, mais inflação e, portanto, mais corrosão dos benefícios transferidos aos mais pobres e dos salários recebidos pelos trabalhadores. Será mais um legado maldito para quem ocupar o Palácio do Planalto a partir de janeiro”. (‘OESP’, 2/5/2014).
  • No ato de 1º. de Maio comandado pela Força Sindical, a ‘estrela’ foi o deputado Paulinho ‘da Força’-SDD/SP: “Dilma deveria é estar na Papuda, junto com os outros, pelo que fez com a Petrobras. Destruiu a maior empresa do Brasil’, disse. Os governistas presentes à manifestação reagiram e o ministro Manoel Dias, do Trabalho e Emprego, “lamentou o tom adotado por Paulinho […]: ‘Temos de consolidar a democracia com respeito. Ela é uma autoridade eleita pelo povo. A divergência tem de ser no campo das ideias, das proposta'”, afirmou. Para ele, a manifestação ‘dá guarida àqueles que querem desmoralizar as instituições democráticas’. (‘Rede Brasil Atual’, 1/5/14).

O ENCONTRO NACIONAL do PT – o movimento estratégico desenvolvido por Dilma continuou no final da semana, com o encontro do Partido dos Trabalhadores. Segundo o documento apresentado pela direção nacional do partido, o objetivo prioritário em 2014 é a reeleição da Presidente. “Esse é o tema central que deverá subordinar todas as demais questões, incluindo as disputas eleitorais nos Estados. As outras prioridades são reeleger os governos estaduais e ampliar as bancadas parlamentares do PT e dos partidos aliados favoráveis à reforma do sistema político-eleitoral. O PT avalia […] que essa disputa eleitoral será a mais dura desde a redemocratização do País, ‘devido à complexidade da conjuntura [e] ao perfil dos adversários’. O PT entende ainda que as eleições deste ano serão um momento decisivo para travar o debate sobre a Reforma Política”. (Sul21, 2/5/14).

OS TUCANOS SURFAM A ONDA – A oposição aproveitou o momento propício e suas  lideranças partidárias e midiáticas propagam que – desde 2006 – nunca foram tão propícias as condições de vitória para os adversários do governo. Assim, a ordem é seguir fustigando os casos Pasadena e André Vargas, bem como denunciando Dilma ao STF por crime eleitoral (por conta da fala feita na TV, no dia 30). Para acrescentar um pouco mais de emoção ao quadro sucessório, a colunista Eliane Cantanhede (FSP, 4/5/14) especulava sobre a possibilidade da chapa tucana ser ‘puro sangue’, formada por Aécio e José Serra – situação improvável até recentemente e que já causou algum mal estar nas hostes tucanas, expressa pelo pouco entusiasmo demonstrado pelo pré-candidato presidencial do PSDB, Aécio Neves. (Também no campo da oposição, registre-se o aparente início do  distanciamento  entre Aécio Neves e Eduardo Campos, fato que coincidiu com a divulgação da pesquisa Sensus).

E se assim ‘la nave va’ no Brasil (com o foco em uma longa, intensa e disputada sucessão presidencial), o quadro econômico mundial ainda não está consolidado e gera incertezas tanto com diminuição do ritmo de crescimento da economia chinesa, como com preocupações sobre o futuro da economia dos EUA, pois o crescimento econômico, no primeiro trimestre – 0,1% – veio bem abaixo das expectativas. Ainda outro destaque na cena internacional é a posição do governo de Portugal que declinou da ajuda da União Europeia/FMI, alegando a impossibilidade de seguir o ideário de austeridade proposto para obtenção de ajuda financeira, em função dos reflexos altamente negativos na área social.

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