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‘Opisanie swiata’ é o título do romance de Veronica Stigger (e significa, em polonês,  “descrição do mundo”). O livro é um relato de viagem, uma colagem que combina formas de narração que – grosso modo – poderiam ser classificadas como ‘subjetivas’ (cartas, diários, bilhetes) e, ou, como ‘objetivas’ (narrativa na terceira pessoa/narrador onisciente, fotografias e variada iconografia dos anos ’30).

Diz a autora: “Opisanie swiata é o título de um conjunto de gravuras do artista Roman Opalka, que eu estava estudando lá por 2006, 2007. Foi pesquisando o que significa ‘opisanie swiata’ que descobri que era como se traduzia para o polonês Il Milione, de Marco Polo” [‘As viagens de Marco Polo’]. Veronica partiu deste universo para construir o seu livro de viagem.

O foco do romance é o relato da viagem de ‘Opalka’, um polonês cinquentão que saiu de seu país – a Polônia, no mês agosto de 1939 – e chegou ao Brasil logo após o início da 2ª. Grande Guerra, em setembro.

Foi a epístola de um desconhecido (‘Nataniel’) que o tangeu. Na carta, ele dizia que era seu filho,  que queria conhecê-lo pessoalmente, mas estava gravemente enfermo e imobilizado num hospital na Amazônia.

‘Opalka’ estivera na Amazônia brasileira, há cerca de quatro décadas, mas ignorava a existência deste filho. Mesmo assim, aceitou o convite/desafio e iniciou a trajetória por ferrovia (em direção ao porto) e seguiu por via marítima a travessia do Atlântico.

A trama desta estória concentra-se nas aventuras da viagem, que consome metade do livro de cerca de 160 páginas, num relato surreal recheado de humor, violência, exotismos e bizarrices, figurando – de forma poética – uma interessante ‘descrição do mundo’ da primeira metade do século 20.

Muitos figurantes surgem durante a viagem. Fulgurante, apenas um: ‘Bopp’. Ele e ‘Opolka ‘ tornaram-se amigos no início da jornada, ainda na Polônia, e seguirão juntos até Manaus. Em entrevista, a autora afirma: “[…] há, sim, conexões entre os personagens do livro e os personagens históricos. No caso de ‘Bopp’, por exemplo, construí sua figura por meio de citações de vários depoimentos alheios sobre o escritor, [o poeta Raul Bopp]. Em alguma medida, trata-se de uma homenagem a este personagem tão fascinante – e a seus amigos, que frequentemente registraram por escrito a noção de que seria um ótimo personagem de romance”.

Outra referência ao grupo modernista da Semana de 1922 é o casal ‘senhor e senhora Andrade’, que tem traços característicos que remetem a Oswald de Andrade e a Tarsila do Amaral (além da incorporação ao enredo de nome de navio – ‘El Durazno’ – do livro de Oswald, ‘Serafim Ponte Grande’).

Ousadia formal e beleza gráfica também são características desta edição da Cosac Naify (datada de 2013). Continente e conteúdo formam uma unidade estética, estimulando ainda mais a experiência da leitura.

Créditos de imagem: topicos.estadao.com.br

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