Em Conjuntura Internacional, Destaques

O Presidente chinês, Xi Jinping, recebeu em Pequim (28/06/14) o Presidente do Mianmar, Thein Sein, e um representante do novo Governo indiano, em cerimônia comemorativa dos 60 anos da promulgação dos “Cinco Princípios da Coexistência Pacífica”, um pacto de não-agressão e não-interferência assinado entre os três países, em 1964. O encontro de agora valeu por ter permitido auscultar os novos governantes da Índia com relação à “Estrada Marítima da Seda do Século XXI”, e também ao projeto, que vem sendo agitado pela China desde 1999, de criação de um “corredor econômico” ligando o Bangladeche, a China, a Índia e Mianmar. Conhecido como BCIM (das iniciais dos quatro países), a idéia é mantida viva através de seminários, conferências e ralis automobilísticos.

Thein Sein chegara a Pequim dois dias antes do encontro tripartite, a fim de manter conversas bilaterais com Xi Jinping, transcorridas em clima cordial segundo a mídia internacional. Vários convênios foram assinados, nos terrenos da cultura, da educação e dos cuidados médicos. O Mianmar é de grande importância estratégica para a China, como ponte para transferir hidrocarbonetos do Oceano Índico até províncias chinesas do interior, sem ter de enfrentar os imponderáveis do “Gargalo de Malaca”. Além disso, os dois países partilham experiências do colonialismo japonês; têm muitos interesses econômicos comuns; e conservam a memória do apoio chinês à antiga Birmânia, nas décadas em que era a mesma ostracizada pelo Ocidente.  Em 1962, o país sucumbira a um dos regimes militares mais fechados e repressivos do pós-II Guerra Mundial, foi renomeado Mianmar e veio a ser tratado como pária pelos EUA e países europeus. A China tornou-se o grande parceiro comercial e absorvente investidor. Foi em parte para afrouxar o abraço chinês que, em março de 2011, um grupo de oficiais superiores passou para a reserva e constituiu-se em governo civil, tendo Thein Sein como Presidente.  Este logo suspendeu a construção da Represa de Myitsone, uma empresa mista com a China (destino de 90% da hidreletricidade a ser produzida), a qual era sonoramente combatida pela minoria Kachin.

Em que medida os EUA poderão ter influenciado essa reviravolta no Mianmar só o futuro dirá. O fato foi que, em agosto de 2011, Obama nomeou Derek Mitchell como seu representante especial e coordenador político no Mianmar. Mitchell viajou seguidamente ao país asiático, preparando o terreno para a visita de grande impacto da Secretária de Estado, Hillary Clinton, preparatória por sua vez de uma visita de Estado, ainda mais espetacular, do próprio Presidente (novembro de 2012). As relações EUA-Mianmar tomaram bom impulso; as velhas sanções econômicas foram muito esvaziadas; e Derek Mitchell é hoje Embaixador na nova capital de Naypyidaw. Washington cravou, sem dúvida, uma cunha em zona de influência chinesa; a zona da ANSEA , no caso. Mas por detrás de tudo o que se tem escrito nesse sentido, China e Mianmar continuam mantendo um estreito relacionamento. Nos dois anos que se seguiram aos desenvolvimentos acima, a China aprovou investimentos diretos no vizinho da ordem de 20 milhões de dólares, soma equivalente a todos os investimentos de outros países nos vinte anos anteriores. E estão sendo concluídos os dutos para petróleo e gás, entre a costa de Arakan, no Mianmar, e a Província chinesa de Yunnan. A cidade fronteiriça de Ruili vai-se tornando um grande centro comercial, e os chineses revelam planos para transformar Yunnan em ativa área de turismo, a serviço do Sudeste Asiático. Um importante aeroporto está sendo construído na cidade de Kunming. É nesse quadro que ganha interesse a visita de Thein Sein a Pequim.

 

Créditos de imagem: japantimes.co.jp

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