Em Destaques, Economia

Quando Pinochet deu o golpe e massacrou os trabalhadores chilenos, através de uma guerra civil que não foi outra coisa que não genocídio, pois só a polícia e as forças armadas do Chile possuíam armas, a primeira delegação estrangeira a informar o mundo da normalidade da situação no Chile foi a FIFA. Sim, da FIFA, para quem acha que o negócio dela é roubar os pobres através do futebol.

As pessoas espertas devem ficar com os olhos bem abertos, porque a história do cavalo de Troia já tem 3.200 anos. É um truque velho. Mais uma vez, contudo, caímos nele, desta feita em 2014 e não 1950. É como se Troia fosse tomada duas vezes com o expediente do mesmo cavalinho de madeira. Desta feita, além das centenas de milhões de reais desperdiçados, destruição de estádios que podiam ser recuperados, tem-se a colocação de milhares de toneladas de concreto, ferro de vergalhão, mas para fabricar doze (!) estádios de futebol, mal feitos, mal concebidos, para expulsar os pobres das torcidas.

O elitismo dos lambe-botas e vende-pátria chegou a tal grau que até a cerveja a ser vendida (!) nos estádios é a marca indicada pela FIFA. Certamente, a FIFA já reservou lugares para a família do Pinochet, do Xá do Irã e outros de seus compadres para assistirem aos jogos mais importantes. Mas para você, ela não reservou. Ela destinou um “sorteio”.  Sacou com quem você está tratando?

A soberania nacional, para a FIFA, o FMI e anexos, é um assunto do passado. No entanto, todos os dirigentes da FIFA (e do FMI) tem uma pátria, recebem em uma moeda forte e andam sob proteção de um passaporte que não é barrado em lugar algum. Por isso, defendem a globalização. Somos cidadãos de um mesmo mundo, podemos “aprontar” em todas as partes. E você? Já experimentou viajar com um passaporte brasileiro? Sim? É por isso que você tirou aquele passaporte do seu Vô italiano?

Sua pátria, portanto, deixou de existir, mas em compensação, a pátria do pessoal da FIFA continua a existir. Isso lhe traz um grande conforto no coração e lhe ajuda a compreender porque no Brasil 37% da população economicamente ativa (PEA) não tem emprego. Certamente é porque a população de países que ainda existem tem emprego. Como dizia o filósofo Bezerra da Silva, o único lugar onde “se faz amor” é lá em Bangu I. Porque na FIFA não se faz. Não há como expandir a felicidade, fechando hospitais e construindo estádios de futebol. Apesar do Ronaldinho do Corinthians dizer o contrário.

Casas, postos de trabalho, etc, deixaram de ser criados com a grana preta que foi enterrada nos estádios; vias de acesso inacabadas, preços inflados de ingresso, etc. Logo uma enorme inflação “estacional”, causada pela Copa nos preços das comidas, das passagens e dos serviços em geral, vai ser “expurgada” e enviada para debaixo do tapete, pelos senhores da situação.

Mas você pelo menos terá comprado uma TV nova e assistindo ao desfecho da Copa, porque pela telinha (ou telona) você ainda pode ver. Depois, pode continuar babando, enquanto os espertinhos voltam para o primeiro mundo, com a renda das cervejas, dos ingressos e – quem sabe? – de outros negócios menos sujeitos a comentários.

Quanto a você, poderá continuar se deliciando com os 37% de desemprego da PEA, com a ausência de esgotos e com aplicação da taxa NAIRU, doação generosa do primeiro mundo para você aperfeiçoar os seus defeitos.

Na teoria econômica da picaretagem de plantão (novo clássico) existe uma taxa natural de desemprego, a qual, por sua natureza, corresponde a um valor numérico único. Assim, as políticas econômicas não podem alterá-la. Bobagem. A taxa de desemprego é um fato social. Está lá porque é uma escolha. No Brasil, 37% do PEA vive desempregado. Isto é natural porque não se faz nada para alterá-la, porque o país – controlado por uma minoria maltusiana de muito ricos – não quer mudar nada, nem mesmo arriscar perder um centavo. Só uma política definida de expansão e crescimento pode absorver excedentes enormes de mão de obra, como o Brasil possui, e sair da miséria dos juros que serão trincados e engrossados. Nesse momento a supor de uma expansão futura e contínua, baseada na poupança interna, farão sentido outros componentes de uma formação nacional, como a educação e a saúde.

Como a já tradicional brincadeira de supostos pontos de equilíbrio e supostas “reversões de expectativa”, é óbvio, pode-se comprovar quase tudo que se deseje. No entanto, basta olhar para o empório da esquina e há de se compreender que tal brincadeira com argolas trata de tudo, menos do mundo real. Para os defensores da teoria a serviço dos especuladores, os interesses efetivos da população se tornam irrelevantes.

No caso da nossa província, o BACEN chegou ao cúmulo de oferecer um número anual (!), ou seja, certo prazo para a inflação esperada, no lugar de oferecer uma “meta de inflação” de médio prazo (4 anos) para os tubarões em serviço. A pergunta seria para quê eleger um governo que age como a moça que balança no balcão de salames? Um governo – num país descente – seria eleito para tomar decisões capazes de proteger a maioria contra os especuladores e ao menos promover o crescimento. Por tanto, é óbvio, ele não poderia durante todo o seu período estar pesando mortadela fatiada para os especuladores da Bolsa.

A qualidade da matemática utilizada pelos supostos “novo-clássicos” pode ser examinada no livro “O Universo Neoliberal em Desencanto”, de José Carlos de Assis e Francisco Antônio Doria (2011). É vigarice de curso de graduação. No entanto, é espantoso que governantes de países onde há população pobre (e até miserável), por motivos de preguiça e covardia, adotem semelhantes doutrinas elaboradas por vagabundos de plantão.

Crescimento econômico se faz com patriotismo, vergonha na cara, planejamento minucioso e controle implacável do avanço da produção material, estrategicamente orientada. É preciso ter um projeto de futuro e olhar para o futuro. Um governo não pode ser orientado pelas futricas de curto prazo de especuladores e exportadores de moeda e metais preciosos. Ele deve pensar grande e planejar friamente cada detalhe de sua política. Não pode ser uma “metamorfose ambulante”, a perder pedaços por aí. Não se pode oferecer dinheiro público, arrancado com sangue dos pobres nele impregnado, a especuladores. Esse dinheiro deve ser reservado para financiar demandas de expansão produtiva, privilegiar o capital produtivo e as necessidades básicas de toda a população.

Adotar um modelo em que a taxa de desemprego suposta capaz de não afetar o nível de inflação (NAIRU) seja 37% da PEA é cometer – como diriam os antigos – crime de lesa-pátria. Daí até se entende que as pátrias não mais existam, na conversa do Consenso de Washington e da famigerada globalização.

Créditos de imagem: coturnonoturno.blogspot.com

Facebooktwittergoogle_plus