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Certas obras-primas são condenadas a uma posição secundária simplesmente porque estão justapostas a outras de maior popularidade. Irmãs menores, dir-se-ia. É o caso da Paixão Segundo São João de Bach, sempre ofuscada pela maravilhosa obra-prima que é a irmã, a Paixão segundo São Mateus. Talvez se essa última não existisse, a primeira pudesse vir a alcançar maior reconhecimento. O mesmo acontece com o Israel no Egito de Haendel em relação ao Messias e com As Estações de Haydn com respeito à Criação – restringindo-nos, obviamente, a esse domínio bastante limitado dos oratórios.

Mas seriam as obras segundas realmente inferiores àquelas suas fraternas? Haveria algum princípio geral que determinasse sempre essa fatalidade? Coloquemos algumas informações na mesa, inicialmente.

A Paixão Segundo São João foi escrita (terminada) em 1724, três anos, portanto, antes que a de São Mateus. Há indicações de que Bach teria escrito outras três que teriam se perdido. Da Paixão Segundo São Marcos só restou o texto e aquela Segundo São Lucas é espúria. Apesar das inserções de segmentos extraídos de obras anteriores em ambas, podemos afirmar que, em primeira aproximação, a Segundo São João precede a mais famosa e melhor estruturada Paixão Segundo São Mateus de poucos anos.

Seria então a primeira Paixão uma espécie de campo de ensaio para a segunda, intencional ou não? Estaria Bach afiando seus instrumentos, inconscientemente talvez, para a criação de sua grande obra-prima? Se quanto à riqueza melódica podemos aceitar uma indefinição, não restam dúvidas, entretanto, de que, quanto à textura, a primeira não alcança o mesmo grau de unidade que a segunda e poderia assim ser considerada como preliminar. Também quanto à grande estrutura da obra, não pode haver dúvida quanto à imaturidade da primeira Paixão.

O oratório de Haendel difere de seus congêneres pelo fato de ter seus conflitos, seus elementos dramáticos, situados antes no domínio moral do que no religioso. As duas exceções únicas são Israel no Egito e O Messias, que não têm roteiro. Embora os demais dispensem uma ação dramática encenada, essa se desenrola em nossa imaginação. São, portanto, óperas imaginárias sobre conflitos humanos extraídos, em parte, da Bíblia. Justifica-se por isso a escolha desses dois oratórios específicos como um bloco distinto dos demais. Em realidade diferem eles mais dos oratórios dramáticos do que esses das óperas do autor. Pois bem, também nesse caso a obra menos bem-sucedida precede àquela de retumbante sucesso de pouco tempo – nesse caso apenas um ano.

As inúmeras alterações sofridas pelo Israel no Egito denunciam a insatisfação do autor e do público à época de sua concepção. E a despeito do magnífico esplendor dos coros desse oratório, não podemos deixar de perceber certo desequilíbrio estrutural e excesso de meios quando comparado com a perfeição que representa O Messias. Pois bem, mais uma vez é possível supor que a obra inferior seja preliminar, embora certamente não intencionalmente, àquela de grande sucesso.

Todavia, fugindo a esse esquema, se coloca A Criação, a genial obra-prima de Haydn, que precede o gentil, o elegante oratório pastoril denominado As Estações. Os demais oratórios de Haydn pertencem decididamente a uma outra categoria, seja devido a uma expressiva mudança de estilo – como acontece com O Retorno de Tobias – ou devido a injunções técnicas – como acontece com As Sete Últimas. E nesse caso não restam dúvidas de que Haydn procurou reproduzir, com insucesso é verdade, o estrondoso aplauso que obteve com A Criação. Mas como disse o próprio Haydn, “n’A Criação falam os anjos, n’As Estações os camponeses”.

Talvez os grandes mestres disponham de um estoque limitado de ideias. Se as melhores são usadas com excessiva generosidade em algumas obras, elas acabam faltando mais tarde. Teria sido isso o que aconteceu com As Estações?

Pois bem, se o leitor quiser tirar isso a limpo que se valha da exuberante interpretação de Harnoncourt, recentemente editada, que não surpreenderá aqueles que conhecem a sua eloquente gravação d’A Criação. Além dessa, a única outra versão que existe em CD, aquela de Marriner, não é recomendável. Do Israel no Egito só existe uma versão em CD, em contraste com onze completas d’O Messias. Felizmente é boa a gravação de John Eliot Gardiner, embora eu continue preferindo aquela de Simon Preston que talvez um dia seja transferida para CD.

E quanto à Paixão Segundo São João de Bach, que por milagre já dispõe de cinco gravações em CD, a preferência continua com Corboz dentre esses, embora Gardiner ofereça uma opção dramática, fortemente expressiva, que impressionará a muitos.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 14/02/1988.

Johann Sebastian Bach

St. John-Passion

Ensemble Vocal de Lausanne Conducted by Michel Corboz

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