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Editorial Brasil 247

Uma lembrança permanente dos economistas continua atual: crise é a soma, nos ideogramas chineses, de risco e oportunidade. Sabe-se que a Petrobras está diante da maior crise de sua história – e os liberais já estão aproveitando a oportunidade para abrir uma campanha pela privatização da maior companhia controlada pelo Estado brasileiro. A versão 2014 do velho e sempre à mão plano Petrobrax.
O inferno astral da estatal ajuda, sem dúvida. Nesta segunda-feira 15, as ações da companhia empreenderam seu sexto mergulho consecutivo no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo, chegando a estar perder 9% ás 14h30. No momento, a companhia tem um valor de mercado quase 50% inferior ao de antes da descoberta do pré-sal. As perspectivas de curto e médio prazos, por outro lado, não são favoráveis. O preço do barril do petróleo caiu no mercado internacional, abruptamente, o patamar de US$ 100 para o de US$ 60.

Executivos da Petrobras estão negociando “intensamente”, segundo o jornal Valor Econômico novos prazos para o vencimento de dívidas estimadas em US$ 97 bilhões. Elas poderão vencer de forma antecipada, já no primeiro semestre o ano que vem, caso a companhia não apresente um balanço auditado nos 180 dias posteriores à divulgação de resultados sem essa chancela. Na frente da investigação da operação Lava Jato, o sangramento de novas denúncias de corrupção é diário.
Apesar desse quadro, continua a ser ideológica a questão da privatização da Petrobras – e não, como querem os liberais, meramente técnica. Para eles, num passe de mágica, uma vez transferida aos agentes do mercado, a companhia passaria a ser um exemplo de administração, resultados e, como se já se fala, recolhimento de impostos. Mas rebaixar a discussão ao plano do imediatismo também seria torna-la superficial.
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No tipo de privatização à brasileira, como se fez na gestão do presidente Fernando Henrique, levam a melhor grandes grupo econômicos, interesses internacionais e também os espertalhões do mercado. Encaixam-se nesses perfis os arrematadores das antigas estatais Vale, CSN e de todo o sistema de telefonia e comunicações. Num plano tão nefasto quanto, se poderia oferecer a Petrobras em fatias, desmontando a união que existe entre todas as suas áreas para vendê-las separadamente: produção, distribuição, gás e assim por diante. Uma área de especial interesse, para ser leiloada em separado, certamente, seriam o domínio sobre o pré-sal e os contratos de compartilhamento de exploração. A mídia tradicional dá corda a todas essas maquinações.
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Das página amarelas da revista Veja, com a defesa na mudança no modelo de partilha de exploração do pré-sal, a manchetes de O Globo, abrindo alas para o massacre à petrolífera, já há quem se posicione claramente pela levada da companhia ao martelo. Ligado ao Instituto Liberal, o advogado gaúcho Fabio Ostermann é um desses pregadores:
– A Petrobras privada poderia seguir o caminho da Embraer ou da Vale, que passaram de estatais deficitárias e ineficientes para exemplos de produtividade e inovação (além de grandes pagadores de impostos).
O liberal completa:
– No modelo atual, temos a questionável vantagem de o petróleo ser “nosso” (sic) – e a conta também.
Alerta: o mesmo Ostermann tem um artigo no mesmo Instituto Liberal cujo título espelha à perfeição o conteúdo: “O salário mínimo não ajuda os mais pobres”.
Assim que, mais do que técnica, a discussão já se coloca, outra vez, no campo ideológico Neste, porém, não espaço com a presidente Dilma Rousseff, talvez a última pessoa no mundo a admitir a venda da Petrobras para o mundo privado – no todo ou em partes.
O desafio racional que está posto para a presidente é o saneamento interno da companhia e seu reposicionamento frente ao novo momento do mercado internacional do petróleo e das percepções do mercado sobre a própria empresa.
A presidente, claramente, está esperando pela conclusão total das investigações, que, de resto, ela é uma das patronas, para executar o plano e resgate do moral e da força da Petrobras. Mais uma vez atendendo ao seu próprio conceito de tempo, Dilma não está se deixando levar pela emoção das manchetes e a pressa dos liberais. Diante de todos os interesses nacionais representados na estatal – e todo o interesse internacional que existe sobre a empresa, em particular dos Estados Unidos e das grandes petrolíferas multinacionais –, a presidente está procurando a ter a calma e a frieza como melhores conselheiras.

Publicado no Brasil 247: http://bit.ly/1wB2cxP

Créditos de imagem: bemblogado.com.br

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