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Por Moisés Mendes

Faltou alguém que desse um trancaço no autoproclamado estuprador Jair Bolsonaro, na terça-feira na Câmara. Faltou alguém que, num impulso moral, dissesse: cala a boca, Bolsonaro!

Os homens deviam estar muito preocupados com o superávit primário quando Bolsonaro ofendeu a deputada Maria do Rosário, o Congresso, o país. Ninguém saltou no pescoço do cara para dizer: chegou, este é o teu limite.

Agora, podem se preparar, porque vai faltar quórum para cassar Bolsonaro. Se fosse numa escola, numa empresa, num clube, Bolsonaro já teria sido mandado embora. Mas ele sabe que da Câmara não sai.

No dia seguinte ao da agressão à deputada, ele disse ao repórter Gustavo Foster, de ZH, que não estupraria Maria do Rosário “porque ela é muito feia”.

Na véspera, havia dito que não a estupraria porque “ela não merece”. Em 2003, já havia afirmado a mesma coisa. Amanhã, na semana que vem, no ano que vem, dirá tudo de novo.

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Maria do Rosário foi agredida porque havia discursado para exaltar o relatório da Comissão da Verdade sobre os crimes da ditadura. Bolsonaro defende a ditadura e a tortura.

Ele já disse frases como esta, a respeito das torturas durante o regime militar: “O grande erro foi ter torturado e não matado”.

A deputada é alvo preferencial de Bolsonaro por representar o que ele abomina. Bolsonaro e outros parceiros (inclusive com franquias de fascismo no Rio Grande do Sul) a catalogaram como defensora de bandidos. O ódio de Bolsonaro contra as mulheres está concentrado em Maria do Rosário. Que drama freudiano o perturba tanto?

Com a distorção grotesca das posições da deputada, ele e sua turma desqualificam tudo o que ela faz em defesa dos direitos humanos.

Maria combate a violência contra crianças, gays, idosos, mulheres, pobres, negros. E provoca a ira de muita gente por denunciar a tortura policial e por ser contra a redução da maioridade penal.

Atacando a colega de Congresso, Bolsonaro ganha manchete. E você fica sabendo quem tem mesmo afeição por bandidos.

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Por isso, a agressão à deputada nesta semana deveria ter provocado a intervenção forte de um homem. Não digam que esta é uma posição machista.

Maria poderia ser defendida por colegas mulheres, como foi, mas ali, no momento do ataque, um homem tinha a obrigação de enfrentar o agressor. Não com discursos e firulas minutos depois. Mas com um para-te-quieto na hora, assertivo.

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A Comissão de Ética da Câmara terá de investigar a conduta de Bolsonaro. Não vai acontecer nada. A Câmara nunca o enfrentou, nem quando ele deu um soco no senador Randolfe Rodrigues.

Não espere mais nada além do próximo ataque do homofóbico e racista que debocha do Congresso. Bolsonaro manda na Câmara e diz o que bem entende, como disse na entrevista ao colega Gustavo Foster que as empresas não devem contratar mulheres, porque uma mulher pode arranjar emprego e logo ficar grávida. Se contratarem, que paguem menos.

As mulheres atormentam Bolsonaro. A sua cassação passa a depender de gestos fortes das mulheres. Dos homens que temem Bolsonaro, não espere nada.

Publicado no ZH

Moisés Mendes. Jornalista.


Créditos de imagem: Agência Brasil

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