Em Análises e Reflexões, Destaques

Por Wilson Gomes

Em postagem no Facebook, o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), alerta para risco de subestimação das “manifestações da base anti petista, apostando que é apenas uma coisa de rico (como se isso fosse um atestado de inautenticidade ou de ilegitimidade) ou que não têm capilaridade”. Coordenador do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (CEADD), da UFBA, ele analisa a postura do que chama de “anti-petismo”. Abaixo a íntegra do post.

Sei não, viu? Muita gente aqui subestimando as manifestações da base antipetista, apostando que é apenas uma coisa de rico (como se isso fosse um atestado de inautenticidade ou de ilegitimidade) ou que não têm capilaridade.

Primeiro, porque eu acho que as pessoas não precisam ter razões fundadas para estarem revoltadas e nem mesmo precisam estar espontaneamente revoltadas; é bastante que uma parte da sociedade convença a outra parte de que “estamos todos” revoltados (ou “na merda”, num mar de lamas, afogando em corrupção, à beira do abismo etc). Se cada vez mais indivíduos se sentem à vontade para escrever e gritar que a presidente é uma vaca, sem temer o desprezo dos circunstantes, o desapreço social ou um tapa nas fuças, é sinal de que o clima de opinião pública está crescentemente desfavorável à presidente Dilma Rousseff. Se cada vez mais gente que não gosta do PT se sente animada para expressar a sua opinião, em quaisquer circunstâncias, é porque acha que a maior parte da sociedade está do seu lado. Como diz a autora dessa teoria (Noelle-Neumann), uma facção que se acha majoritária, mesmo que efetivamente não o seja, fatalmente se encaminha para se tornar, de fato, majoritária. Os que sentem que a onda não lhes é favorável vão murchando e recolhendo as asas e os que acham que estão com tudo vão ficando cada vez mais barulhentos e animados – à espiral que recolhe uns, crescentemente, a um envergonhado silêncio corresponde a corrente ascendente que eleva os seus adversários a um estado de empolgação. Portanto, muito cuidado nessa hora.

Querem um exemplo curioso? Há poucos dias a UNE publicou um post no Facebook convocando as pessoas para uma manifestação, no dia 13, em defesa da Petrobras e de mais trocentas pautas pró-governo. À primeira vista, a repercussão foi boa: 5.234 curtidas, 2.570 compartilhamentos. Examinadas as coisas mais de perto, não é bem assim. Curtir e compartilhar dão muito menos trabalho (e geram menos empenho e atrito) do que comentar. Os comentários já passam de 950. Numa análise preliminar, de uma amostra de 10% dos comentários (por relevância), 94,5% deles são ferozmente contrários ao post. “Ferozmente” quer dizer que não simplesmente divergem ou tomam distância do conteúdo do post, mas partem na base do pé no peito e dedo no olho mesmo. Além disso, os comentários negativos são altamente apoiados: 95% do total das curtidas (N = 2.150) são dados aos comentários adversários. Quer dizer, se o sujeito se dá ao trabalho de ir na página da UNE atacar, de faca nos dentes, um post de apoio ao governo, ele realmente está comprometido com a luta política contra o PT, acredita que está em maioria e se sente completamente garantido para esse atrevimento. Note, por fim, que quase 100% dos adversários do post mostram a cara nas fotos dos seus perfis; não se escondem no anonimato, como costumava acontecer.

O clima de opinião está mudando, meus amigos. Fiquem espertos. Ou não.

Brasil247 Online: 09/03/2015.

Wilson Gomes. Jornalista e professor de Comunicação da UFBA.


Imagem: brasil247.com

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