Em Destaques, Música

Impregna, hoje, a percepção, tanto do musicista profissional como do diletante dedicado, de que haveria um estoque imenso, inextinguível mesmo, de música medieval já revelado ou a ser revelado. Essa convicção, ao que parece, beneficiaria a indústria do disco como também essa infinidade de publicações que a promovem e essa coorte de comentaristas extemporâneos. Mas seria realmente pertinente a conjetura de que haveria um tesouro musical, revelado ou não, de proporções tais como nos querem fazer crer? Em meados do ano de 2000, em La Coruña, Espanha, apropriadamente à margem do “Caminho de Santiago de Compostela”, reuniram-se os mais distinguidos musicólogos especializados na música da Idade Média ocidental. Por consenso, recomendaram esses senhores que o trabalho de busca, de garimpagem, se encerrasse e que os trabalhos em musicologia medieval se concentrassem na restauração dos documentos subsistentes e suas múltiplas e complexas correlações. Ou seja, o último congresso de musicologia chegava à conclusão de que praticamente toda a música ocidental sobrevivente da Idade Média já tinha sido descoberta. Para confirmar essa hipótese basta-nos comparar os levantamentos de manuscritos existentes, em momentos sucessivos da musicologia moderna. Essa fase é inaugurada em 1940 com a obra magistral de Gustave Reese, o decano da musicologia científica, intitulada “Music in the Middle Ages” (W.W. Norton). O documento seguinte a ser considerado é o monumental estudo contido no “New Grove” de 1980 sobre fontes (Sources).

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Se o acréscimo, descoberta de manuscritos com melodias originais, já é pequeno, nesse primeiro longo intervalo, ainda muito menor é o que, embora fragmentariamente, se pode depreender de alguns artigos do “Early Music History”, notadamente da revisão do trecento italiano publicada por M. Bent no volume 15, editado em 1996. Apenas um novo fragmento do códex de Lucca fora descoberto em 1888 com apenas dois bi-fólios, o que corresponde a um acréscimo de apenas 0,5% sobre o que se conhecia à época da publicação do famoso levantamento do “New Grove” sobre esse período específico. Ou seja, um princípio básico da estatística nos afiança que não há muito mais a ser descoberto no que diz respeito ao trecento italiano. Em verdade, o que está acontecendo sobre os demais segmentos da música medieval não difere muito do período mencionado. Podemos, pois, concluir que, de fato, já é conhecido o corpo essencial da música medieval do Ocidente. Resta-nos, portanto, avaliar as dimensões físicas dessa obra somatória. Seria ela tão colossal quanto nos procuram fazer crer a indústria do disco e seus comensais? Avaliemos em seguida as dimensões físicas do legado musical da Idade Média. Para tal avaliação dividiremos a música medieval em segmentos determinados pelas principais tradições ou escolas.

O canto gregoriano (do século 4º ao 10º)

A Igreja Católica é responsável pela primeira e importante tradição musical do Ocidente, o canto gregoriano. A contabilidade feita após o formidável trabalho de restauração pelos beneditinos de Solesmes reconhece 630 peças originais para a missa em suas múltiplas conformações. São Gregório e a Igreja Romana que adotou sua reforma disciplinar (a partir do século 7º) haviam conseguido uma extensiva e miraculosa homogeneidade. Desde os confins da longínqua Inglaterra, desde as montanhas nevadas da Suíça até a própria Roma, o que se cantava na Igreja Católica era notadamente invariante. Mesmos textos, mesma música. O manancial que eclodira juntamente com o cristianismo, desde o século 3º até o 7º, e que já estava certamente, no século 8º, homogeneizado pela transmissão oral e por escritas primitivas, depurado, aperfeiçoado por sucessivos artistas anônimos, tornou-se um imenso tesouro, se não pelas dimensões, pela extrema elegância “minimalista” – a que nenhum Scriabin ou Scelsi jamais se aproximariam. Todavia nosso objetivo é tão-somente avaliar as dimensões físicas da produção musical da Idade Média. Este primeiro corpo de composições é o que legitimamente pode ser denominado de canto gregoriano, pois sua seleção e organização foi possivelmente elaborada pelo próprio Gregório, o Grande. Para comparar dimensões é preciso medir, e para medir é preciso, arbitrariamente embora, escolher uma unidade. Seria a nota com ou sem a duração a unidade adequada? Ou o compasso, multiplicado pelo número de vozes, talvez? Pois bem, vamos escolher uma unidade certamente precária, mas de assimilação direta e já familiar a todos, o CD, aproximadamente uma hora de duração. O legado da missa gregoriana representa, se medido em CDs, pouco menos do que metade das cantatas litúrgicas de J.S. Bach (1685-1750), ou seja, 30 CDs.

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O Serviço das Horas

Muitos especialistas consideram também como canto gregoriano um outro conjunto de peças denominado Serviço das Horas – ou Ofício. Essa classificação é aceitável, pois, embora não tenham essas composições sido incorporadas ao corpo principal, têm em parte a mesma origem. Todavia sua inclusão é apenas parcial, pois, não tendo essa coleção sido disciplinada por Gregório 2º, ela sofreu adições e modificações contínuas até praticamente os nossos dias.

Uma das mais generosas avaliações de suas dimensões pretende que essa coletânea seja composta por 2.000 antífonas e 800 responsórios originais, ou seja, escritos até meados do século 10º. Além do expurgo de composições elaboradas após a Idade Média, principalmente durante o Renascimento, encontram-se muitas peças do Ofício que são meras adaptações de trechos da missa. Esse volume, que aqui consideramos como de aproximadamente 3.000 composições, tem, entretanto, variado enormemente com a percepção e os critérios de cada estudioso. Essas antífonas e responsórios têm, em média, duração muito menor (metade, aproximadamente) que as composições que compõem o serviço da missa. Ou seja, podemos afirmar que o total do canto gregoriano, lato sensu, missa e horas, corresponde aproximadamente, em duração, à obra coral de Bach: cantatas litúrgicas e profanas, missas, motetos, oratórios, paixões e corais (105 CDs aproximadamente).

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Outras formas de cantochão

Em paralelo ao canto gregoriano existiam, na Idade Média, várias outras formas de cantochão. O velho romano que em grande parte foi absorvido pelo canto gregoriano não pode ser considerado como um corpo musical distinto do gregoriano. É apenas um outro dialeto. O mesmo ocorre com o Ambrosiano (cantochão da igreja de Milão). Do galicanto, bem estruturado cantochão gaulês, cuja maior parte também foi assimilada pelo gregoriano, muito pouco foi preservado. Do mozárabe, da Península Ibérica, apenas recentemente vem sendo decifrado o pouco que resta. A liturgia eslovena é mais recente. A totalidade dessas tradições é certamente menor em extensão que a obra instrumental de Bach, a saber, 70 CDs aproximadamente. É no século 11 que começam a surgir as primeiras inovações na música litúrgica católica, que, embora timidamente, começa a incorporar alguns preceitos da música profana, ou melhor, da música popular contemporânea. E iniciam-se na Escola de Notre Dame as primeiras experiências polifônicas, que, não obstante, somente no século 12 assumiriam o papel de principal objetivo da música da Europa ocidental. Esse capítulo será considerado após a monofonia.

 

Créditos de imagem: aumagic.blogspot.comdocstoc.comloja.tray.com.brmusicahistoria2012.blogspot.com

 

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