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A polifonia medieval primitiva (séc. 11 ao 13)

Sempre que se mencionam as formas iniciais da polifonia medieval uma confusão se estabelece entre características morfológicas e objetivos formais. Apropriadamente o livro sagrado do estudante de música, o “New Grove”, distingue duas fases de polifonia medieval, a saber, o período dominado pelas formas estruturais primitivas, “organo” e “descanto”, de um lado, em que predominam cláusulas (adendos finais às partes da missa, tanto do Próprio quanto do Ordinário, formado a partir de melismas de canto gregoriano e portanto bastante breves, que progressivamente se tornam segmentos autônomos), conductos, tropos etc. Por outro lado, a segunda fase é dominada por uma forma estrutural que vai estender sua atuação além do Renascimento até o Classicismo, o moteto. Esse termo também é usado em referência funcional, principalmente durante o Renascimento. Musicólogos não percebem a diferença entre estrutura e função. Formas primitivas de polifonia, o “organo” e o “descanto”, litúrgica, paralitúrgica e eventualmente profana, são encontradas em 13 manuscritos e alguns fragmentos. O mais famoso e talvez o de melhor conteúdo é o códex Calixtinus, que se encontra em Santiago de Compostela, com 114 composições completas e ocupando quatro CDs em uma versão integral.

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O “Tropero de Winchester”, com 174 “organa”, é o seguinte em importância. Dois outros manuscritos se encontram na Biblioteca de Paris e são os únicos acessíveis ao público em geral. Dois outros estão na Biblioteca de Londres e um em Cambridge. O mais extenso é o da Biblioteca Mediceo-Laurenziana de Florença, com cem obras monofônicas e 860 polifônicas. Em documentos exibidos por bibliotecas alemãs estão mais 260 obras. Os restantes manuscritos se encontram em Madri, Paris e Helmstedt. Enfim, ao todo, somam-se cerca de 2.170 peças musicadas. Nossa avaliação é que a totalidade da polifonia litúrgica primitiva medieval (basicamente organo e descanto) pode ser contida em aproximadamente 80 CDs. O mais conhecido dos manuscritos “referentes” ao moteto medieval é certamente o códex Las Huelgas, com 140 obras polifônicas e 45 monofônicas.

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Todavia parte significativa das peças polifônicas são “canons” ou “descantos”, e não motetos, o que também acontece com os cinco demais manuscritos existentes relativos a esse período da Idade Média. No total não são senão seis manuscritos que englobam cerca de 750 obras únicas. Um dos mais importantes desses manuscritos é o códex de Montpellier. É também dos mais bem estudados (Mary E. Walinsky, “Early Music History”, vol. 11, 1992) e contém quase metade da música polifônica do período. Uma das versões do famoso “Roman de Fauvel” está em Paris, na Biblioteca Nacional. As 750 peças litúrgicas e paralitúrgicas francesas, na forma de moteto, do medieval tardio, juntamente com canons e organa dos manuscritos aqui considerados, ocupariam aproximadamente 30 CDs. Em conclusão, a soma de toda a obra litúrgica européia no período de 1150 a 1300 é comparável em duração à obra instrumental de Vivaldi (1678-1741), com cerca de 600 peças ou 1.800 movimentos -e que ocupariam cerca de 110 CDs.

A nova música polifônica nasce no purgatório (1300-1420, Ars Nova)

A idéia de purgatório fez com que a confissão não fosse suficiente para que houvesse salvação. A penitência ajudaria a reduzir o período em que o pecador passaria no purgatório. Aos poucos se firma a convicção de que peregrinações, boas ações e até doações poderiam encurtar esse período de sofrimento. É claro que, para o rico, uma doação é sempre um sofrimento, uma penitência. Mas, se a retribuição é o paraíso, talvez seja um bom negócio. E assim também se pode, com naturalidade, concluir que uma missa encomendada pode reduzir o estágio no purgatório e talvez também uma redução da temperatura do fogo primitivo lá de baixo. E quanto mais eloquente a missa, maior a indulgência. Com isso começaram a ser rejeitadas as modestas missas gregorianas. Um pouco de luxo, de brilho, soaria por certo melhor aos ouvidos do Altíssimo. Essa oferta crescente de música para mortos e vivos em troca de indulgências permitiu o surgimento de compositores laicos, embora ligados à igreja, e, como consequência, também uma nova e rica polifonia. Eis como Barbara Hagg (“Medieval and Renaissance Music”, University of California Press), entre outros, explica a explosão de polifonia a partir do século 13. Existem, de fato, incontáveis testemunhos de donativos específicos para novas composições, fossem provenientes de nobres, de ricos burgueses, de fraternidades etc. -ou da própria Igreja Católica. Todavia também não devemos esquecer que as indulgências também enriqueceram a igreja – o que, em si, já permitiria a contratação de compositores laicos mais bem formados em polifonia.

Landini e o “trecento” italiano

O “trecento” italiano, por questões de estilo, costuma ser encerrado em 1430 ou 1420, dependendo do autor. Foram sete os manuscritos considerados recentemente por Margaret Bent em “Early Music History” (vol.15, pág. 270). O mais interessante é o Squarcialupi, que contém a quase totalidade da obra de Landini (apenas nove obras se encontram em outros manuscritos, e não no Squarcialupi). De um total de 357 obras, 146 são de Landini. O total de obras dos sete manuscritos é de 1.184. Todavia muitas são as redundâncias, o que reduz o corpo original dessa música a 600 e poucas obras profanas e 50 obras litúrgicas. É portanto correta a afirmação corrente de que Landini é responsável por cerca de um quarto da música subsistente do trecento italiano – e em sua totalidade esse segmento não ocuparia mais do que cerca de 30 CDs, com certeza.

Créditos de imagem: bruno-caplier-musicien.tumblr.comgl.wikipedia.orgsequentia.org


Artigo publicado originalmente no jornal FSP de 05/08/2001.

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