Em Destaques, Escrita'10

“It is a tale. Told by an idiot, full of sound and fury. Signifying nothing”

 

William Shakespeare

 

O romance “Amanhã não tem ninguém” (Flávio Izhaki/Rocco, 2013) é breve retrato sobre uma família pequeno-burguesa. Quatro gerações (bisavô, avó, pai e mãe, tio e bisneto) narram a estória, revezando-se neste relato sobre o cotidiano simples de uma família brasileira do século 20, que vive no bairro carioca da Tijuca. 

Natan (o patriarca da família, que foi relojoeiro até a idade de 78 anos) é filho de imigrante judeu e já está morto na abertura do livro. Seu único bisneto é quem nos conta isto, numa narrativa em primeira pessoa. A seguir, num longo flash-back, os demais narradores – sempre na primeira pessoa, inclusive o falecido Natan – vão nos informar que ele morreu aos 88 anos, sofreu com acidentes vasculares e com Alzheimer, que sua mulher – Ana – havia morrido há cerca de duas décadas (depois de muito padecimento), que sua filha (adotiva) – Marlene, dois filhos – ficou viúva cedo (pois Afonso, o marido, tivera morte súbita aos 45 anos de idade). Um dos filhos de Marlene é homossexual (Marquinhos) e emigrou para Israel; o outro (Nicolas) migrou para São Paulo, casou com uma não judia (Mônica) e é o pai de Patrick, o bisneto de Natan.

Todos – menos Ana e Afonso – relatam aquela que foi e é uma existência sem aventuras, sem glamour, corriqueira. Um microcosmo de culpas, medos, preocupações, em que há o peso das tradições e o sigilo hipócrita das transgressões (conformando um elenco de pequenos segredos que ficam abrigados no interior da micro comunidade familiar). Tudo desembocando na velhice sofrida, plena de frustrações, perdas, doenças e mortes. E sem a presença étnica no futuro, parcialmente justificando o título escolhido para o romance.

Se aqui a vida pequeno-burguesa é uma mesmice, muito diverso é o que ocorre com o tratamento literário que Flávio Izhaki deu à obra. Ele a segmentou em cerca de setenta/oitenta pequenos subcapítulos, variando a narrativa e o narrador, sustentando assim o interesse do leitor até a frase final do romance. O formato escolhido pelo autor tornou vigorosa a ficção e a crítica especializada reconheceu a sua competência: “Amanhã não tem ninguém” recebeu muitos elogios e foi livro premiado.

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