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Não são muito claras as diferenças entre as óperas e os oratórios dramáticos de Haendel. É verdade que os temas dos grandes oratórios são extraídos da Bíblia, mais precisamente do Velho Testamento, exceto por Teodora. Mas essa é uma circunstância irrelevante do ponto de vista da concepção musical quando prevalece o dramático sobre o religioso e o heroico sobre o místico. É claro que estou excluindo dessa discussão O Messias e talvez Israel no Egito, concebidos mais como obras de concerto do que como dramas litúrgicos para a sala de concertos. Haendel foi um desses gênios essencialmente musicais, como Schubert ou Mozart, para quem tudo é música e só a música conta, e até a fé não passa de pretexto para uma manifestação musical.

Para aqueles que pretendem identificar nos coros d’O Messias o espírito místico ou a profunda religiosidade eu diria que nada entenderam de Haendel. Para ele o único Absoluto era a Música e, nessas condições, qualquer contorno literário ou estrutural que não seja fundamentalmente musical não faria sentido. Portanto, seria para Haendel inconcebível a adoção de fórmulas preconcebidas e diferenciadas para oratórios e óperas. Se há maior incidência de coros em relação a árias nos oratórios do que nas óperas é apenas porque uma particular ideia musical ou emoção se exprimiria mais eficientemente com esse ou aquele arranjo vocal. Por outro lado, também não podemos esquecer que o jogo de cena previsto para uma ópera introduz limitações de natureza diversa daquela de oratório dramático, mas esse condicionante é de identificação bastante difícil e, principalmente no que diz respeito a gravações especificamente, torna-se irrelevante. Então como explicar o quase total esquecimento em que caíram as Óperas de Haendel? Das cinquenta existentes apenas cinco são encontradas em catálogo atualmente e creio que nem dez chegaram a ser gravadas, uma situação muito mais triste do que aquela em que está o oratório, para cuja categoria existem nove interpretações em catálogo dos trinta e dois Oratórios.

Felizmente, as gravações existentes são em geral de melhor qualidade que aquelas dos oratórios, odes, hinos e motetos já comentados. Por exemplo, a interpretação de Admeto por Alan Curtis com o Complesso Barocco é antológica, dessas que não serão suplantadas jamais. Estilisticamente é perfeita e os solistas não poderiam ter sido melhor escolhidos. René Jacobs é imbatível no papel de Admeto e seu parceiro James Bowman como Trasimedes é igualmente insuperável. Somente o fato de colocar em um mesmo disco dois dos maiores contra tenores da atualidade já recomendaria essa gravação. Mas nela tudo é lapidado com esmero e bom gosto. Não creio que haja outra interpretação tão cuidada de qualquer que seja a obra de Haendel. Se você é um haendeliano encomende-a hoje. Se não gosta de Haendel, nem de ópera, então pode deixar para amanhã.

Malgoire não é Curtis, mas tem aquela seriedade integral que o musicólogo americano já havia demonstrado ao nos fornecer a melhor interpretação em disco da obra para cravo de François Couperin, há quase vinte anos atrás. Todavia, Malgoire tem um inegável talento e é justamente em Haendel que ele melhor o revela. É verdade que seus maneirismos pedantes, como se fosse o Karajan da música Renascentista, é por vezes irritante. Suas interpretações de Xerxes e Rinaldo, não obstante, são mais que recomendáveis. Elegantes em sua concepção, principalmente essa última. Acho mesmo que Malgoire se encontra melhor em Haendel do que em Rameau. Seu grupo instrumental La Grande Ecurie et la Chambre du Roy está, como sempre, muito bem.

Não há outra gravação de Rinaldo, mas Xerxes já foi gravado outras vezes. A versão tradicional dessa última ópera com o Coro da Academia de Viena e Orquestra da Rádio dessa mesma cidade, sob a direção do competente Brian Priestman e excelentes solistas. Esse mesmo grupo gravou também Rodelinda e essas versões ainda eram encontráveis até recentemente nos EUA em casas especializadas. Mas eu não as recomendaria a não ser para aqueles que são fanáticos, como eu.

As interpretações de Alcina e Júlio César com todo aparato londrino sob a direção de Bonynge não é para ser negligenciado como se poderia supor pela coleção de estrelas digna de um desses retumbantes lançamentos de uma ópera de Verdi.

Em Alcina temos a gloriosa Sutherland, a magnífica Berganza, a suavíssima Sciutti, a Excelsa Sinclair, a mirelíssima Freni, o inolvidável Alva. Tudo isso em uma única gravação! É para deixar louco qualquer daqueles puccinistas maníacos que não compreenderiam o desperdício. Todo esse talento deveria estragar qualquer ópera de Haendel, ainda mais com o italianíssimo Bonynge no pódio. Mas não, o resultado é bastante agradável. Talvez seja a presença do competente George Malcolm no contínuo. O elenco de estrelas na gravação do Júlio César não é tão impressionante, mas também nesse caso o resultado final é defensável. A outra versão existente com Rudel dirigindo a Orquestra e Coro da Ópera de Nova York não é menos impressionante pois além de Beverly Sills em seu apogeu tem a colaboração de Maureen Forrester e de Norman Treigle. Não sei se preferiria essa à versão de Bonynge, mas qualquer uma seria aceitável para quem realmente precisa de uma gravação de Júlio César, pelo menos enquanto não é editada uma outra melhor.

Estamos melhor servidos com Ariodante pois há duas excelentes versões, uma com Stephen Simon, dirigindo a Orquestra da Ópera Popular e o coral da Academia de Viena. A outra sob a direção de Leppard com a Orquestra de Câmera Inglesa e as Vozes de Londres. Academicismo bem dosado, adequada leveza no estilo, são as marcas dessas duas gravações que recomendo sem reservas. E isso, infelizmente é quase tudo que existe por enquanto à disposição do interessado.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica.  São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 16/10/1983.

 

Georg Friedrich Heandel

Sinfonia Act III from Serse
Vienna Radio Orchestra
Brian Priestman, conductor

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