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Ele toca direitinho, mas não é nenhum Paderewsky”, disse o grande Rosenthal de Paderewsky, após ouvi-lo pela primeira vez, em Londres.

Ninguém nunca foi tão venerado pelo público, desprezado pela crítica e odiado pelos músicos quanto Paderewsky. O remanescente do que gravou em disco fornece um testemunho inequívoco. A técnica é medíocre. Toda passagem um pouco mais exigente que é ultrapassada geralmente com facilidade por um bom estudante de classe especial de piano, exigia de Paderewsky uma simplificação ou pelo menos uma desaceleração. Não obstante, seu sucesso como concertista foi tão retumbante que fez dele a mais importante personalidade política da época em seu país e o sustentou como primeiro-ministro por quase um ano. A dilacerada Polônia durante a Primeira-Guerra encontrou em seu incomensurável prestígio internacional a força de coesão que permitiu uma ação política e mesmo militar na América e na Europa suficiente para reservar depois à Polônia um lugar ao sol.

É com razão que seu país lhe dedica uma solene reverência. Todavia, o fenômeno artístico que Paderewsky representa continua inexplicável. Há grandes artistas que sobrepujam pequenas deficiências técnicas com o auxílio de, por exemplo, um magistral sentido de equilíbrio, como foi o caso de Kempff, ou ainda com auxílio de uma sutileza rítmica anímica, como foi o caso de Rubinstein. Todavia, não apenas são as deficiências técnicas de Paderewsky ordens de grandeza mais significativas, como também nada há de facilmente identificável em sua expressão que possa distingui-lo de uma plêiade de pianistas Românticos medíocres, seus contemporâneos. Pelo menos no que deixou registrado em seus discos.

Por outro lado, também é verdade que alguma propriedade excepcional se faz necessária para arrebatar, na medida em que foi alcançado por Paderewsky, um público tão extenso e tão diversificado. Possivelmente não houve outro fenômeno de iguais dimensões desde Liszt. Mas o começo foi muito difícil. Sem instrução formal até os doze anos, o pianista polonês jamais se livrou de vícios e insuficiências próprias à sua escolaridade caótica. E mesmo Leschetitzky, herdeiro e cultor de Liszt, esteve por várias vezes a ponto de desistir de seu tardio discípulo, já com vinte e quatro anos de idade. Mas Paderewsky comandava com sua obstinação doentia um grande respeito.

Foi assim que surgiu essa figura inesperada na música, acumulando fracassos estrondosos iniciais, na Rússia e na Europa Central. Ele já tinha vinte e sete anos quando explodiu em Paris e rapidamente se espalhou a onda paderewskyana por todo mundo.

Havia alguma coisa de patológico no seu jogo. Paderewsky treinava, dizia-se, dezessete horas por dia. E tocava com uma intensidade emocional sem precedentes. Compensava sua insuficiência técnica e suas duvidosas concepções artísticas com um fulgor desumano. Sua presença era pouco menos que diabólica. E, é preciso não esquecer que a montagem psicológica, elaborada por meio de eficientes artifícios propagandísticos, era extremamente eficiente. Ninguém soube como Paderewsky criou tal expectativa e um clima místico. Os espetáculos eram cuidadosamente preparados inclusive com adolescentes instruídos com o propósito de encenação histérica à maneira de um Sinatra e um Roberto Carlos. Tudo valia para gerar um mito.

Horowitz é de uma outra estirpe. Parte justamente do extremo oposto. Seu maior triunfo é o controle de uma técnica lúcida e precisa de que nenhum outro pianista antes ou depois pôde dispor. Horowitz consegue extrair uma tal sonoridade de seu Steinway, como raros maestros de suas orquestras. E isso apenas com os dedos, usando o pedal somente quando inevitável. De fato, Horowitz foi menos, muito menos exibicionista do que Paderewsky. Um profissional muito mais respeitável. Falta-lhe, por certo, a serenidade e a visão de conjunto para as grandes obras daa literatura pianística. Seu Beethoven é desconexo e mesmo o seu Chopin não se aproxima daquele de Arrau, ou de Pollini, por exemplo. É grande apenas nas peças mais curtas, em Skriabin, em Scarlatti, talvez. E, no entanto, é, indiscutivelmente, um Romântico.

Como Paderewsky, é Horowitz uma estrela supernova no firmamento da música ocidental. Seus discos devem ser adquiridos e apreciados por todos. É um grande pianista. Mas não é um grande intérprete. E esse é o paradoxo com que se precisa conviver.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Texto publicado originalmente em 23/08/1987.

Vladimir Horowitz
Scarlatti, Schumann, Scriabin, Schubert, Liszt, Chopin
(Live in Milano 1985)

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https://youtu.be/w8epowR7WOM

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