Em Análises e Reflexões, Destaques

“Pessoalmente, nem você, nem eu, nem os nossos companheiros podemos nos lamentar de toda essa tempestade que desabou sobre nossas cabeças. Uns vão sofrer mais, outros menos, mas nada irá se comparar ao flagelo que já começa a viver o povo brasileiro. Sem as reformas de base, os anseios por renovação que incutimos em grande parte da população, especialmente entre os mais humildes e carentes, serão contidos à força. As liberdades públicas serão podadas. Tu te lembras, quando estavas no Ministério do Trabalho, quantas vezes te pedi que dissesses aos nossos amigos dos sindicatos para moderarem as exigências. Não era possível atender todos e tudo ao mesmo tempo, reparando injustiças graves, velhas de séculos… Se me forçarem demais a barra, vem aí uma ditadura militar, e eles não vão poder nem andar na rua. E não deu outra. O pior é que vem aí um arrocho salarial dos diabos, e a mesma classe média que marchou alvoroçada contra o meu governo, agora, você já está vendo, começa a comer o pão que o diabo amassou. Toda essa onda contra o governo, valendo-se da ingenuidade e boa-fé de tantos, não passou de uma gigantesca montagem cênica, uma orquestração de forças externas aliadas aos grandes industriais, ao capital financeiro especulativo e ao latifúndio. E, o que é mais grave: fomos ‘ajudados’, você sabe de que modo, pelos insensatos que havia do nosso lado… O radicalismo exacerbado, de muitos que estavam do nosso lado, a tal história de ‘reformas na lei ou na marra’, as lideranças esquerdistas exercitando mais a vaidade do que o bom-senso e o patriotismo, tudo isso foi aos poucos empurrando o governo para extremos condenáveis. Confesso que não me eximo de certa culpa, tudo isso teria se desfeito se eu desistisse das reformas”.

João Goulart.

 

A derrubada, em 1964, do presidente constitucional João Goulart, por um golpe civil-militar estimulado e apoiado pelo governo norte-americano representou o assassinato da frágil democracia brasileira que se iniciava nos seus primeiros passos. Significou também um veto inconstitucional à escolha popular que o elegeu nas urnas vice-presidente de Jânio Quadros, presidente renunciante aos seis meses de mandato, e consagrado ao mando da Nação por 80% do eleitorado brasileiro que votou pela reabilitação do presidencialismo, no plebiscito de 1962 Nesse sentido, sua destituição pelos militares e civis mancomunados na insídia foi uma grosseira usurpação do poder de Estado, legal e legitimamente conquistados por Jango. Sem deixar de recordar que foi apeado do poder exatamente no momento em que pesquisa de opinião contratada pelas organizações Globo, arqui-inimiga do líder trabalhista (que por isso ocultou o seus resultados), granjeava de uma popularidade invejável, com a aprovação de mais de 80% da população brasileira.

A morte do presidente Jango, em condições estranhas, para dizer o mínimo, quando pairava sobre inúmeras nações latino-americanas a funesta Operação Condor e, o seu sepultamento realizado de maneira rasteira e ligeira, nada condizentes com as prerrogativas próprias e honrarias devidas ao chefe de Estado que era, encerraram o ciclo de desonra e humilhação que reservou a ditadura militar a um dos mais honrados filhos do Brasil à frente da presidência da República.

Decorridos 50 anos da sua deposição e quase 40 da sua morte, Jango é ressuscitado de volta a uma vida que, pouco se duvida, não lhe foi traiçoeiramente arrebatada, e reempossado ao cargo que, inobstante as tramas políticas, nunca deixou de lhe pertencer pelo desígnio das urnas. As horarias de chefe de Estado que recebeu ao retornar ao seu túmulo em São Borjas representam parte da reparação que lhe foi negada em 1976 e, antes disso, durante os anos de exílio.

O primeiro significado da restauração, mesmo que simbólica, da 24ª. Presidência da República exercida por João Belchior Marques Goulart é a remissão do Estado brasileiro com a sua verdadeira história e para com o Povo que o elegeu. Outro significado dessa recuperação tem valor pedagógico extraordinário, no sentido de desmentir a falsa crença difundida e repetida pelas elites nativas de que o Brasil é habitado por um povo sem memória. Também ensinam as efemérides em torno da devolução póstuma do mandato presidencial a João Goulart que não é desrespeitando e violentando a vontade popular, conspurcando o exercício do poder de Estado e vilipendiando ou mesmo rasgando a Constituição como fizeram os arrivistas de 64 que se construirá uma nação próspera, justa e solidária.

Claro que a ressignificação em curso do governo do presidente João Goulart restaurado com a anulação da ata que sacramentou a sua destituição por uma decisão ilegítima de um Congresso Nacional agachado e ao mesmo conivente, e agora reempossado simbolicamente com o diploma presidencial, terá redobrado sentido quando finalmente for conhecida a verdadeira causa da sua morte no exílio na Argentina também sob a ditadura de generais. Este é o sentido e a razão da exumação dos restos mortais de Jango.

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Créditos de imagem: pt.wikipedia.org

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