Em Conjuntura Internacional, Destaques

Havendo já abordado a rivalidade sino-americana no espaço sideral (coluna de 15/12/15)1 e no espaço marítimo chinês (coluna de 01/01/16)2, torna-se oportuna uma vista de olhos sobre a mesma rivalidade no espaço virtual, o ciberespaço. Campo de batalha criado pelo homem, após a utilização militar da terra, mar, ar e espaço exterior, o ciberespaço foi reconhecido como área de combate pelo Pentágono, na abertura do século XXI. Em 2005, os EUA efetuaram, com a ajuda de Israel, um ataque cibernético contra o Irã, o qual é geralmente visto como ato inaugural da ciberguerra. Uma peça vendida para a usina nuclear de Natanz foi contaminada secretamente com o vírus Stuxnet, que causou devastação entre as centrífugas iranianas. O tema da ciberguerra ganhou grande relevo internacional, em 2014, quando o Departamento de Justiça americano protocolou acusações contra cinco militares chineses, por atos de ciberespionagem econômica contra empresas americanas. Washington estava dando um passo à frente em campanha que o Presidente Barack Obama estivera conduzindo desde 2013, e que havia sido silenciada pelo escândalo da espionagem global efetuada pela ASN (Agência da Segurança Nacional) dos EUA, revelada pelo ex-técnico da agência, Edward Snowden. A imprensa estatal chinesa reagiu violentamente à ação do Departamento de Justiça, classificando o gesto dos EUA como tentativa de encobrir sua própria ciberespionagem. Somente entre março e maio de 2014, afirmavam os chineses, espiões americanos teriam conduzido 2.077 ataques a redes de computadores governamentais, de universidades e empresas da China, com vírus do tipo “Cavalo de Troia”.

Na nova situação, tanto os EUA quanto a China sentem-se desafiados a criar ferramentas e estratégias para atuar no ciberespaço. Nos EUA, 2008 foi um momento de guinada no desenvolvimento de estratégias para a ciberdefesa, em resposta a um ataque anônimo a computador militar, em base no Oriente Próximo. O vírus espalhou-se silenciosamente por algum tempo, causando considerável estrago, e o Pentágono precisou montar uma grande operação corretiva, conhecida como Buckshot Yankee. No quadro do Comando Estratégico foi criado o Cyber Command, chefiado por um general de Quatro Estrelas. Seu funcionamento foi sendo desenvolvido em compartilhamento com o Reino Unido, a Austrália e o Canadá. Para os analistas das várias células de reflexão que o assunto tem feito surgir nos EUA, os resultados de um ataque de ciberguerra ao país serão tão ou mais devastadores, conforme estejam integradas à internet as infraestruturas críticas dos sistemas de comunicação, de transmissão elétrica, etc.. Na proposta de orçamento para 2010, Barack Obama incluiu, assim, um financiamento de 355 milhões de dólares destinados ao Departamento de Segurança Interna para o fortalecimento da internet. Além disso, a Casa Branca anunciou que destinaria “fundos substanciais” para proteger as redes do Programa Nacional de Inteligência, em cujo contexto são conduzidas as operações globais de ciberespionagem, descritas por Fareed Zakaria como “uma nova fronteira, num mundo confuso e caótico, alimentado pela globalização e a revolução informática”. É amplamente conhecido que os EUA construíram prédios ultramodernos para suas Embaixadas, em países sem importância como os da faixa do Sahel africano ou de regiões periféricas na Ásia, prédios que abrigam na verdade o instrumental do PNI.

Tanto os EUA quanto a China vêm aperfeiçoando sistematicamente suas capacidades para a ciberguerra. Mostram-se ambos convictos de que eventuais futuros conflitos entre eles comportarão, inevitavelmente, operações de cibercombate. Hipótese sempre estudada é a de um desembarque chinês em Taiwan, no caso de uma declaração de independência da Ilha. Será vital para as Forças Armadas chinesas retardar a chegada do socorro americano; ou ainda melhor, hostilizar as forças americanas antes de que elas possam revidar contra as chinesas, ou atacar posições no continente.  Em artigo na Survival (Aug-Sept 2014), dois professores da Academia Naval dos EUA estenderam-se na análise da “instabilidade crítica”, prevalecente hoje na Ásia-Pacífico diante da busca pela China da paridade estratégica com os EUA e do reforçamento contínuo da capacidade ofensiva dos americanos. Pequim elabora planos e medidas ditos de anti-acesso e negação de área (A2/AD), a serem postos em prática tanto com métodos convencionais como de ciberguerra. Procuram os chineses fortalecer uma “cadeia mortífera” de sensores, redes, plataformas de lançamento, armas e centros de controle e comando. Felizmente, porém, tanto os EUA quanto a China têm mantido no nível teórico seu aprendizado do cibercombate. O relacionamento entre os dois países segue sob estrito controle político, através de encontros anuais econômicos e estratégicos.

  1. EUA-China: Em busca de um novo equilíbrio no espaçohttps://rogeriocerqueiraleite.com.br/2015/12/eua-china-em-busca-de-um-novo-equilibrio-no-espaco/
  2. EUA-China: Atritos no espaço marítimo chinês – https://rogeriocerqueiraleite.com.br/2016/01/eua-china-atritos-no-espaco-maritimo-chines/

Imagem: mateamargo.org.uy

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