Em Conjuntura Internacional, Destaques

Nas semanas finais de setembro de 2015, o noticiário da imprensa internacional foi avassalado, no hemisfério americano, pela cobertura das visitas do Papa Francisco a Cuba e aos EUA. Quase não se falou, nos jornais paulistanos por exemplo, da significativa visita que o Presidente chinês realizou aos EUA, na semana iniciada a 22 de setembro. Xi Jinping devia estar presente na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, no final do mês, e calculou uma passagem por Washington, antes dessa reunião, com o caráter de visita de Estado; a primeira dessa natureza que ele faria aos EUA desde que assumiu a presidência da China. Os prazos foram cumpridos, mas o brilho que Xi certamente estaria querendo extrair da visita, se ela pudesse ter sido vista como o fechamento do espetáculo da chegada da China à vice-liderança mundial, não foi alcançado. O entendimento com Barack Obama não obteve impacto internacional.

O quê há por baixo da determinação de Xi de acertar ponteiros com Obama? Analistas como Ian Bremmer têm procurado explicar algumas das palavras-de-ordem mais repetidas por Xi, como o “sonho chinês”, ou a “revolução energética na China”. O sonho chinês de Xi nada tem que ver, por certo, com o “sonho” de uma vida afluente e tranquila da classe média americana. O sonho de Xi – dizem aqueles analistas – é um apelo ao renascimento nacional chinês; uma afirmação de direitos nacionais; e a insistência em que os ideais do Ocidente não são universais: a China tem os seus próprios valores e os seus próprios planos. “Revolução energética na China”, na visão de Xi, não se resume ao crescimento tecnológico puxado pelo mercado, mas abarca a renovação do setor de energia do país sob a direção do Estado, de maneira a proteger o monopólio do partido governante sobre o poder político. Conforme assinalei na coluna anterior, Xi estaria vendo a abertura de uma janela de oportunidade para impulsionar seus planos de reforma interna. A visita a Obama indicaria que ele também vê o momento internacional como propício para usar poder econômico, político e diplomático na defesa dos crescentes interesses globais da China.

Às vésperas de sua partida para os EUA, Xi aceitou conceder uma rara entrevista a jornal estrangeiro, o Wall Street Journal, no caso. Respondeu por escrito a uma dúzia de perguntas enviadas pelo jornal. De maneira geral, Xi deixou claro que vai manter uma política regulatória rígida, dando ao mercado, ao mesmo tempo, maior liberdade na alocação de recursos. Ele abordou o capitalismo americano de maneira mais aberta do que o fizeram os líderes chineses que o antecederam. Começou seu périplo por Seattle, onde teve encontros durante dois dias com os executivos-chefes de quinze corporações, destacando-se a Apple Inc., Microsoft Corp., e Boeing Co.. Nas respostas enviadas ao WSJ, embora repetindo que a China continuará aberta às empresas estrangeiras, Xi frisou que a internet precisa ser cuidadosamente regulada para “proteger a soberania, a segurança e o desenvolvimento da China (…) A liberdade e a ordem têm que existir lado a lado, tanto no espaço cibernético quanto no mundo físico.” Na entrevista, Xi pôs ênfase também na cooperação sino-americana em assuntos mundiais relevantes, desde acordos para reduzir emissões ligadas às mudanças climáticas até o esforço comum na negociações de limites para o programa nuclear do Irã. “Em vez de superar os EUA, a China quer trabalhar com o governo americano na melhoria da ordem mundial.”

Munido de todas essas boas disposições, Xi acertou sua visita de Estado a Washington para os dias 24 e 25 de setembro, com direito a salva de 21 tiros de canhão e jantar de gala na Casa Branca. No sábado 26 deslocou-se para Nova York, a fim de atender às obrigações com a 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Em entrevista coletiva à imprensa, após reunião de trabalho na Casa Branca, os dois Presidentes anunciaram caminhos convergentes no terreno do ciberespaço, juntamente com a criação de um grupo de alto nível que procurará combater crimes cibernéticos. Concordaram também em seguir avançando no tocante às mudanças climáticas. A este último respeito, cabe lembrar que em novembro/2014, os dois governos chegaram a um significativo acordo sobre emissões de carbono, do qual se espera que estimule os entendimentos em preparo para a Conferência da ONU sobre o Clima, no final do ano em Paris.


Imagem: AP Photo/Andrew Harnik

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